Admiração ou idolatria?

publicado em 03 julho de 2017 • Bianca Cirilo

Uma reflexão sobre as relações humanas no meio espírita

 

Por Bianca Cirilo

 

O ranço de uma religiosidade equivocada parece ter gerado uma confusão entre o sentimento de admirar e o de incitar a vaidade. Durante muitos séculos, o predomínio da culpa, como instrumento de controle das massas, constitui-se como ferramenta privilegiada da religião para que seus seguidores fossem comedidos no momento de avaliarem suas próprias potencialidades.

A humanidade foi praticamente educada, religiosamente, para que estivesse atenta ao risco da soberba como filha do elogio, sendo manobrada, então, para que os adeptos tivessem cuidado ao se referirem a si mesmos, sob a alegação de que seguir a Deus deveria ser sinônimo dehumildade e como se esta última fosse apenasuma questão aparente, nada tendo a ver com a sinceridade de coração.

Por outro lado, se o ato de admirar a si mesmo era condenável, o próprio pensamento religioso, antes do advento do Espiritismo, produziu, estrategicamente, ídolos apócrifos alusivos aos falsos cristos citados por Jesus.Os fiéis adeptos de uma fé distorcida não deveriam, então, olhar para as suas próprias virtudes, porém, deveriam eleger aqueles que seriam os virtuosos.

Como efeito disso, produziu-se um estranhamento de si mesmo onde os indivíduos passaram a confundir admiração com idolatria, admiração com vaidade e admiração com orgulho. Pior do que isso, passaram a qualificar fora de si o que era bom, verdadeiro, virtuoso, enfim, aquilo que merecesse admiração.

Infelizmente, ainda não é regra a educação do sentimento de nossas crianças para que desde cedo aprendam a admirar-se. Jesus espera que amemos a nós mesmos como ao outro, entretanto, isso deve ser estimulado desde a tenra idade. Não há nada de errado em reconhecer as próprias capacidades, ao contrário, disso depende a evolução individual e coletiva. Buscar atentar-se à marcha do progresso e não contaminar a ideia de evolução com arrogância.

O verbo admirar significa apreciar, respeitar. Seu sentido suscita algo suave e equilibrado. Admirar a si mesmo ou a alguém representa contemplar com respeito algo que advém desta pessoa. Quem admira o outro admira a si mesmo, sabe reconhecer as qualidades alheias sem bajulação e sem medo de estar cometendo um erro, como incitando a vaidade; isso porque, nesse caso, o indivíduo apoia-se na própria autoestima e não no orgulho.

Ouvimos desculpas do tipo: “não elogio para não incitar a vaidade de ninguém.” Será que a função do elogio é produzir vaidade ou estimular o progresso alheio, incentivar? Será que quando falamos que não estamos querendo fomentar o orgulho não seria porque nós mesmos recebemos incentivos como alimento da nossa soberba?

A soberba nada tem a ver com admiração, idolatria sim. Idolatrar refere-se ao ato de amar cegamente, havendo aí, um exagero e um processo de infantilização do idólatra. Jesus lidou com fanáticos,idólatras, ou seja, com indivíduos cujo sentir não era apoiado no discernimento, como vemos, atualmente, em muitos casos. Os fundamentalistas religiosos seriam um tipo de exemplo, já que, por idolatrarem suspendem o bom senso.

A exortação do Cristo: “Vós sois deuses!” alude à admiração de si e não à idolatria. No meio espírita, precisamos dar novos significados à nossa conduta quanto a essa discussão. Temos criado ídolos falíveis como nós, idolatrando pessoas, porém, nos ressentindo quando essas pessoas não atendem às nossas expectativas. Idolatrar o próximo é faltar-lhe com a caridade, pois ninguém ainda é perfeito, logo, tal atitude desumaniza quem está sendo o alvo da idolatria. Em última análise, acreditar que alguém é ícone, quando o próprio Cristo se recusou a isso, representa atitude lamentável e perigosa ao convívio social, gerando desavenças e falsas expectativas.

Nossa vaidade tem produzido sérios problemas no campo dos relacionamentos. Por carências psicológicas, muitos de nós ainda buscam reconhecimentos das formas mais variadas como crianças que esperam a aprovação alheia. Essa postura nada tem a ver com o equilíbrio do incentivo, remete à vaidade que deseja, por sua vez, talvez também se transformar em ídolo para alguém, ou, por estar se sentindo tão abaixo de tudo e de todos, há companheiros que elegem os supostos privilegiados divinos.

Não há sacerdócio no contexto da fé espírita,somos todos filhos de um mesmo Pai, amoroso e justo que deseja que prosperemos sempre.Ora, se o progresso é lei, não há problema em nos incentivarmos, encorajarmos, ao contrário,devemos assim proceder. No entanto, estejamos atentos para não fomentarmos a idolatria que cega nossa alma, nos fazendo acreditar que somos melhores ou piores uns do que os outros,quando, na verdade, o que há entre nós é apenas a diferença lógica que prescreve a individualidade espiritual que todos somos.

 

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Referências Bibliográficas

KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo.“Progressão dos Mundos”. Rio de Janeiro: CELD, 2011.

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