As várias faces do carnaval

publicado em 06 fevereiro de 2018 • Isa Santos e Bárbara Cruz

ORIGENS

As origens do Carnaval remontam às antigas saturnálias, festas em homenagem ao deus romano Saturno e aconteciam no mês de dezembro, por ocasião do solstício de inverno. Havia nessas festas a essência da libertação (e da libertinagem), o que propiciava uma significativa (embora momentânea) mudança da hierarquia social, na qual os escravos se comportavam como homens livres. Além disso, simbolicamente, se entregava o poder social ao princeps, homem que, como uma caricatura da nobreza, vestia uma máscara cômica, com cores chamativas (de preferência o vermelho, a cor dos deuses).

Por ocasião desse costume, os romanos sacrificavam uma vítima humana, intencionalmente escolhida para esses eventos. Assim, com o desenvolvimento dessa prática, em épocas posteriores à Idade Média já se aceitava a tese de que “uma vez por ano era lícito enlouquecer”.

No livro Nas Fronteiras da Loucura, de Manoel Philomeno de Miranda, é citada uma asseveração de Bezerra de Menezes a respeito dessa postura de extravagância, que diz: “há estudiosos do comportamento e da psique sinceramente convencidos da necessidade de se descarregarem as tensões e os recalques nesses dias em que ‘a carne nada vale’”, pensamento que até hoje sustenta os padrões do carnaval moderno.

 

DESCANSO E TRABALHO

ideia de Carnaval se associava ao conceito de descanso, de refazimento de energias. O homem via nessa festa a oportunidade de libertar-se da árdua vida diária a que estava submetido. Se isso, por um lado, ocasionava uma sensação de prazer, por outro produzia consequências desastrosas, devido à falta de controle que era característica desse processo.

A sensação de prazer buscada pelo homem foi estudada psicanalista austríaco Sigmund Freud. Em O mal-estar da civilização, ele afirma que “o homem se torna neurótico porque não pode suportar a medida da privação que a sociedade lhe impõe, em prol de seus ideais culturais, e conclui-se então que, se estas exigências fossem abolidas ou bem atenuadas, isso significa um retorno a possibilidades de felicidade”. Para Freud, neurose pode ser entendida como o conflito entre aquilo que o indivíduo é, de fato,e aquilo que ele desejaria prazerosamente ser. Ou seja, há a possibilidade de que o homem que está inserido em uma sociedade em que há normas a serem cumpridas, obrigações a serem realizadas e condutas a serem tomadas, busque,nesses dias de festa, deleitar-se ao prazer como se este fosse sinônimo de felicidade. E é exatamente o que ocorre no Carnaval. A interpretação imatura sobre o que é trabalho, descanso e prazer leva a muitos desregramentos e naturais equívocos.

Quando Allan Kardec, com muita propriedade, estudou as leis morais ditada pelos Espíritos Superiores, estabeleceu a Lei do Trabalho (Q. 674), em O Livro dos Espíritos, mas também a lei do descanso (Q. 682): “O trabalho é uma lei da Natureza, por isso mesmo, constitui uma necessidade e a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque ela aumenta suas necessidades e seus gozos” (Q.674)”. Já sobre a Lei do descanso, estudado na questão 682, afirma-se que o repouso serve para reparar as forças do corpo e é, também, necessário, a fim de dar um pouco mais de liberdade à inteligência, para elevar-se acima da matéria.”

O que podemos entender é que o desregramento, muitas vezes oriundo da imaturidade na interpretação do que seria o descanso e o prazer pode trazer as consequências nefastas ao espírito encarnado, visto que somos habitantes da Terra, mundo de provas e expiações. Santo Agostinho, em O Evangelho Segundo o Espiritismo afirma que: “as qualidades inatas que possuem são prova de que eles viveram e de que realizaram um certo progresso, mas os numerosos vícios aos quais estão inclinados também são o indício de uma grande imperfeição moral” (Cap. III, item 13). De forma ilusória, em vez de usar nosso tempo para o refazimento das energias espirituais e corporais, caímos numa festa que pretexta (mas não nos impõe – é preciso que se diga) o prazer desenfreado acreditando assim atingir uma felicidade autêntica, quando, na verdade, vivemos apenas uma efêmera alegria.

 

 

VISÃO ESPÍRITA

Pela psicografia de Divaldo Franco, Manoel Philomeno de Miranda traz para a esfera terrena, em Nas Fronteiras da Loucura,um estudo profundo sobre carnaval. Nesta obra, o autor nos convida a várias reflexões acerca de nossa conduta moral durante as situações cotidianas, recuperando em nós a certeza do amor de Deus e o amparo da Espiritualidade Socorrista, chefiada por Dr. Bezerra de Menezes.

Emmanuel também se pronuncia sobre o carnaval e nossas escolhas. Na Revista Internacional de Espiritismo, de janeiro de 2001, o Espírito diz que não se devem adormecer as consciências diante desse evento, pautado muitas vezes pelo egoísmo e vaidade (leia no Box o estudo completo).

Já Georges, espírito protetor, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 11, nos convida a refletir sobre essas questões, em “Cuidai do Corpo e do Espírito”. Nós, enquanto espíritos imortais, sabemos que estamos neste corpo carnal de passagem e que a verdadeira vida é a vida de espírito. Porém, para que alcancemos o êxito espiritual, precisamos aprender a lidar com a vida na carne, pois é a que nos possibilita enfrentar as vicissitudes e aprendermos a lidar com a matéria. Portanto se faz necessário cuidar deste instrumento da alma, para que tenhamos a disposição e renovação necessárias para trilhar no caminho do bem.

Divaldo Pereira Franco diz, por sua vez, que “muitas das vezes nos dias que seguem posterior ao carnaval observamos o arrependimento, o transtorno emocional, as obsessões dos espíritos que se utilizaram daqueles dias de insensatez para poder perturbar o equilíbrio psicofísico das suas vítimas.”

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