Autoperdão: Um Primeiro Passo para a Reforma Íntima

publicado em 25 setembro de 2017 • Bianca Cirilo

Por Bianca Cirilo

        Analisando a trajetória epistemológica do movimento histórico-religioso, encontramos o Espiritismo como passo renovador da relação do homem com Deus e suas leis. Assim como da postura que ele é convidado a ter perante si mesmo e seu próximo.

De fato, Allan Kardec inaugura não somente uma radical mudança de paradigma nos campos da filosofia, da ciência e da religião, como também convoca a humanidade a cindir com uma ligação nociva e punitiva com o Criador.

O Livro dos Espíritos, a obra de vanguarda deste novo paradigma, tece inúmeras considerações em torno de uma convocação a nossa real identidade como seres imortais e perfectíveis da Criação Maior. A sua essência ética deve encontrar na própria consciência a conduta moral irretorquível a ser descoberta, passo a passo, nas infinitas fieiras da reencarnação dinâmica que nos oportuniza com a sucessão de vidas até o fim colimado.

Sendo, pois, o Espiritismo a doutrina indiscutível do amor do Cristo para conosco, torna-se imprescindível extrair do mesmo, seu ponto principal e consolador a nos dizer que devemos olhar para o que efetivamente gera em nós renovação. A saber: reconhecer-se como ser divino, fadado à felicidade plena.

O peso da culpa, engendrada pelas manobras políticas de uma religiosidade anterior marcada pela corrupção e as distorções em nome de Deus, deixa marcas profundas no Espírito imortal que somos. Isso nos faz fomentar o que André Luiz chama de zona de remorso, criando assim, em nós, um afastamento equivocado do acolhimento divino.

 

“A recordação dessa ou daquela falta grave, mormente daquelas que jazem recalcadas no espírito, sem que o desabafo e a corrigenda funcionem por válvula de alívio às chagas ocultas do arrependimento, cria na mente um estado anômalo que podemos classificar de “zona de remorso”[1].

 

Considerando, portanto, que o Espiritismo traz alívio e renova a esperança, o primeiro passo seria justamente identificar em si os sinais indicativos desta chaga punitiva condenatória e bloqueadora da possibilidade de nos sentir como filhos de Deus que somos. Mais do que saber disso, é necessário sentir-se como tal, saindo de um sentimento de orfandade divina que tem sido motivo de tantos desencontros e conflitos humanos desde sempre e que  atinge na atual Era, manifestações lamentáveis no campo dos problemas psicológicos e sociais de nosso tempo.

Somente assim, após a assunção da existência desta zona prejudicial que se manifesta pelo sentimento de inferioridade, inveja, mau-humor, sabotagem de si mesmo e dos próprios projetos, sentimento de vítima diante dos outros, etc poderá o espírito agir em benefício de si e simultaneamente em prol do outro[2]. Não há como amar se não nos apropriarmos de nossa condição sublime que nos filia a Deus definitiva e eternamente.

O autoperdão é a tomada de consciência de que somos seres em desenvolvimento, sujeitos a erros, tendo em vista o nível evolutivo em que ainda estagiamos. Sua coerência está no fato de que o sentimento evolui do instinto aos afetos mais nobres da experiência espiritual. Desta forma, a sucessão de vidas que nos é apresentada garante que, paulatinamente, encontremos estímulos a mudança de estágio e rumemos na direção de conquistarmos o amor ensinado por Jesus.

“Na sua origem o homem só tem instintos; mais avançado e corrompido, só tem sensações, mais instruído e purificado, tem sentimentos; e o ponto mais delicado do sentimento é o amor, não o amor no sentido vulgar da palavra, mas o sol interior que condensa e reúne em seu ardente foco todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas”[3].

O que poderia ser mais extraordinário que a extração de dentro de nós desta força hercúlea diante da dor e o consequente resgate de si mesmo? Teria algo mais poderoso do que este movimento de amor por si, que faz com que o espírito decida se vencer e se direcione ao que faz bem à alma e a própria consciência?

Somente o amor divino estimula em nós o autoperdão, como um antídoto contra a desistência de si mesmo[4]. Esta desistência se dá quando o espírito se vê sem saída para suas faltas e é incentivado a se punir, a se contorcer no remorso. Jesus, através da sua doutrina amorosa e infalível, lembra-nos que a conquista de si mesmo é um processo a ser autorizado por nós, por meio da célebre frase: vai e, no futuro não peques mais! Se há como ir sem errar mais é porque a vida tem jeito, tem recomeço incessante.

Para isso devemos compreender o livre-arbítrio como instrumento único desta autorização. Se não tomarmos nossa capacidade de decisão perante a vida, seremos levados ao sabor de falsas ideias derrotistas e ilusórias que diariamente vamos consumindo como verdades.

O farol do mar da vida é Deus; o roteiro da travessia é o Cristo; o meio é o Espiritismo e o guia do barco somos nós mesmos, enquanto espíritos imortais, decidindo como queremos nos sentir, que experiências nos convêm buscar e quanto mais tempo vamos perder fugindo do colo divino.

 

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Bibliografia

 

KARDEC, A. O Evangelho Segundo Espiritismo. CAP X, item 12. Rio de Janeiro: CELD, 2004. (p.176)

FRANCO, Divaldo. Amor imbatível Amor. Pelo Espírito de Joanna de Ângelis. Salvador: Editora Leal, 1998.

KARDEC, Allan. Amar o próximo como a si mesmo. In Evangelho segundo Espiritismo. Cap. XI, 1.ed. Rio de Janeiro: CELD, 2004. (pp. 190-191).

LUIZ, André. Predisposições mórbidas. In Evolução em Dois Mundos. Cap. XIX. 13.ed. Brasília: FEB, 1958. (p.213).

OLIVEIRA, Wanderley Soares de. Escutando sentimentos: a atitude de amar-nos como merecemos. Pelo Espírito de Ermance Dufaux. Belo Horizonte: Editora: Dufaux, 2006.

[1] Citação de André Luiz no livro Evolução em Dois Mundos.

[2] Referência ao livro Escutando sentimentos: a atitude de amar-nos como merecemos, pelo espírito Ermance Dufaux.

[3] Allan Kardec, no livro O Evangelho Segundo Espiritismo, Cap X, item 12.

[4] Referência ao livro Amor imbatível Amor, pelo Espírito de Joanna de Ângelis.

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