Convivendo com os Diferentes

publicado em 25 outubro de 2017 • Cláudia Galves

Diferentes! Somos todos diferentes, uns dos outros!

Desde pequeninos, muitos de nós ouvimos o dito popular: “Até os dedos da mão são irmãos, mas não são iguais”. Os filhos são diferentes uns dos outros, apesar de terem o mesmo pai, a mesma mãe e a educação no mesmo ambiente. Conviver com as diferenças é algo constante em nossas vidas, mas ficamos impacientes com os diferentes de nós e dizemos: “– Não é possível que você pense desse jeito”!; “– Não acredito que ainda esteja fazendo isso!”; “– Olha seus sentimentos extravagantes, como me aborrecem”! Muitas vezes, isso gera conflitos e desentendimentos sérios, não é verdade? Quantas vezes achamos que a nossa conduta é a melhor, a mais correta? E até nos incomodamos com os que não concordam ou não fazem o que desejamos exatamente do nosso jeito!

É certo que o diferente, algumas vezes, pode até parecer “esquisito”, mas é importante lembrar que tudo depende do referencial. Por que não pensamos que, muitas vezes, aquilo que parece tão diferente é bem “igualzinho”, visto de um outro ângulo? Quantas vezes, quando ultrapassamos as barreiras do preconceito, descobrimos que aquele que parecia o nosso oposto, traz em seu coração, em seu íntimo, alegrias ou aflições tão conhecidas e tão sentidas por nós? Quantas vezes a sua diferença encobre uma dor que nos é muito familiar?

Se começarmos a refletir sobre esse tema, vamos descobrindo que nós mesmos somos diferentes a cada momento, até porque, como diz o ditado antigo que expressa a ideia de Heráclito de Éfeso: “O rio que passa por aqui não é o mesmo rio que passa por ali”. E assim, nós também temos o pensamento enriquecido a cada instante com dados informativos, seja pela experiência e pela observação que nos levam a reflexões profundas de nós mesmos e dos outros; seja, até mesmo, quando lemos ou estudamos sobre algum assunto. E com novos dados, a cada instante nos apresentamos com um “eu” tão diferente que até parecemos contraditórios no pensar, no falar e no agir. É isso mesmo, estamos constantemente em transformação! Mas, apesar disso, nos aceitamos. Então, por que não aceitamos quando essa diferença se trata do outro?

Jesus nos ensinou que os seus discípulos seriam reconhecidos por muito se amarem e nos lembrou de que o maior mandamento é “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” (Mateus, XXII: 34 a 40). Ainda nos parece difícil compreender que, para desenvolver o amor a Deus, seja necessário chegar ao próximo primeiro. Como poderemos utilizar essa ponte se estivermos distantes dele? É preciso que nos coloquemos no lugar do outro, percebendo suas necessidades e vendo-o como um igual, alguém exatamente como nós, que tem o seu jeito, limites, gostos, opiniões, necessidades e, também, os seus desenganos. Mas, somos mesmo iguais?

 

SOMOS IGUAIS! A LEI DE DEUS GARANTE ESSA IGUALDADE

Apesar de toda diferença e esquisitice do outro – a nosso ver, é claro –, constatamos a nossa igualdade com as palavras dos benfeitores espirituais nas Obras Básicas, seja na criação: “Deus criou todos os espíritos simples e ignorantes” (O Livro dos Espíritos, q. 115 e 133); seja na dor: Deus criou todos os homens iguais para a dor; pequenos ou grandes, ignorantes ou instruídos, sofrem pelas mesmas causas, para que cada um julgue judiciosamente o mal que pode fazer” (O Evangelho Segundo o Espiritismo XVII, item 8).

E, ainda, quando estudamos a lei de Igualdade, vimos que ela coloca todo espírito em condições idênticas em relação a Deus, nosso Pai, e garante uma Justiça Divina cheia de bondade e de misericórdia, que respeita o estágio evolutivo de cada um, que se direciona para um objetivo comum, que é a perfeição e a felicidade que tanto buscamos.

Mas, se somos iguais, por que nos apresentamos diferentes? Os amigos espirituais nos esclarecem: “Deus criou iguais todos os espíritos, mas cada um deles vive há mais ou menos tempo e, por conseguinte, possui mais ou menos aquisições; a diferença está no grau de sua experiência e da vontade que lhes constitui o livre-arbítrio: daí, uns se aperfeiçoarem mais rapidamente, o que lhes dá aptidões diversas. (…) o que um não faz, o outro o faz; é assim que cada um tem seu papel útil. (…).” (O Livro dos Espíritos, q. 804).

Diante desta resposta dos espíritos benfeitores, percebemos que a diferença está no livre-arbítrio de cada um e no esforço que faz para entender que a solidariedade acelera o progresso, conduzindo todos mais depressa ao objetivo de Deus. E isso já se expressa no mundo material, quando se observa a frequência das palavras: interagir, compartilhar e ter parceria. Mas, então, o que dificulta tanto essa convivência, gerando conflitos constantes, tornando-se, muitas vezes, um desafio e não uma escolha consciente e amadurecida?

 

CONVIVER É VIVER COM AS DIFERENÇAS

Há uma tendência do ser humano em se agrupar e estabelecer vínculos, na maioria das vezes, com os iguais e isso faz parte da natureza. Há uma história em que, na era do gelo, os animais morriam de frio até, instintivamente, se agruparem para não morrerem congelados. Porém, não havia possibilidade com os porcos-espinhos, pois quando se aproximavam, feriam uns aos outros. Mas, havia uma escolha: ou aprendiam a viver com os ferimentos causados por essa aproximação ou ficavam sem ferimentos e morriam de frio. Para sobreviverem, aprenderam a conviver com as feridas que a relação com os outros pode causar.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, um espírito protetor nos ensina: “Até mesmo as impaciências, causadas por contrariedades, muitas vezes pueris, dependem da importância que atribuis à personalidade, diante da qual julgais que todos se devem curvar” (cap. IX, intem 9). Aqui nós temos a chave da convivência, pois, com a excessiva valorização pessoal, desejamos o controle sobre tudo que nos rodeia, priorizando os próprios interesses, e aí aparecem os “espinhos” que ferem qualquer relação.

E para completar este quadro, quando se trata de diferenças, sempre aparece a discriminação: “se não pensa, sente ou age como a maioria, não tem valor”. Quando alguém se apresenta diferente de “todo mundo”, a tendência é ser fortemente criticado e denegrido pelos demais. É comum observarmos isso na moda, com as novidades que surgem no mercado, as gírias, músicas, danças, e muito mais! Tudo gera um esforço constante para quem quer “estar de acordo com a maioria” e não ser discriminado. Mas isso tem um preço!

Santo Agostinho nos revela que o nosso mundo, a Terra, “é um dos tipos de mundos expiatórios, mas que também serve de lugar de exilo aos espíritos rebeldes à Lei de Deus” (Cap. III, item 15). Se a lei é de igualdade e nos sentimos superiores ao discriminarmos o próximo, estamos nos assumindo como “rebeldes”, ou seja, contrários à Lei de Deus.

É importante prestarmos atenção no que a Doutrina Espírita no ensina sobre isso. É preciso refletir: quantas vezes me aborreço quando “Fulano” não concorda comigo, “Beltrano” não faz do jeito que quero e “Cicrano” tem reações que não tolero, mesmo quando nem estou envolvido na situação? Mudo o meu humor, porque as pessoas são diferentes de mim? Acredito que a minha forma de pensar e agir é a melhor e não considero que “ALI DENTRO TEM GENTE”! Nesses momentos esqueço que o outro tem o direito de pensar, sentir e agir mediante a sua escolha, seus gostos, suas aspirações, seus desejos e convicções. E que desconsiderar isso é exaltar minha própria personalidade em detrimento do outro. E o nome disso, já sabemos, é o orgulho, sempre falando mais alto!

A boa convivência é buscar a harmonia. Contudo, é essencial considerar que não estamos sozinhos e, por isso, o outro também é importante, tanto quanto nós!

 

COMO ENCONTRAR A HARMONIA?

Reflitamos nas palavras de um espírito protetor que, ao falar sobre a fé e a caridade, nos lembra de que não devemos nos ocupar somente com a nossa felicidade, e que a vida terrestre deve servir unicamente para o nosso aperfeiçoamento moral, e ressalta a importância do convívio com as diferenças. Ele diz: “Sem considerar as vicissitudes comuns da vida, a diversidade de vossos gostos, das tendências e das necessidades são também um meio de vos aperfeiçoardes, exercitando-vos na caridade, porquanto só à custa de concessões e de sacrifícios mútuos podereis manter a harmonia entre elementos tão diferentes. (Cap. XIII, item 14)

Como podemos ver, as concessões e sacrifícios mútuos são necessários ao nosso aperfeiçoamento. Não é só o outro que tem sempre que ceder. Nós, também! O problema está em nos lembrarmos disso nos momentos comuns da vida. Podemos dizer que já até sabemos disso, mas na hora… “o sangue ferve”! É aí que os nossos “espinhos” machucam o outro e nem percebemos que também “nos” prejudicamos, atrasando o nosso desenvolvimento! O que nos auxilia em tais ocasiões é o esforço que fazemos para “domar as más inclinações”, como nos diz Kardec quando se refere aos bons espíritas (Cap. XVII, item 4). É uma luta pessoal que nos leva ao questionamento feito por ele aos espíritos quanto à possibilidade de o homem vencer seus maus pendores através dos seus esforços e a resposta: “Sim, e, algumas vezes, através de pequenos esforços; é a vontade que lhe falta. Que pena! Quão poucos dentre vós esforçam-se para isto”! (O Livro dos Espíritos, q. 909).

Os esforços contínuos e perseverantes nos levarão a conquistas que nem imaginamos ser capazes. Emmanuel nos orienta que devemos canalizar nossas forças para combater o “egoísmo, esse monstro devorador de todas as inteligências, esse filho do orgulho que é a fonte de todas as misérias aqui na Terra”, e também nos lembra que “é preciso mais coragem para vencer a si mesmo do que para vencer os outros” (Cap. XI, item 11).

O Espiritismo, trazendo o entendimento da nossa condição de espíritos imortais, confirma o ensinamento de Jesus, quando disse que a verdade nos libertará das ilusões acerca de nós mesmos. Somente cresceremos quando compreendermos que estar em contato com os outros acelera o nosso progresso, se agirmos com equilíbrio, paciência e benevolência.

Considerando um aspecto mais profundo, que é quando somos magoados, feridos por alguém, também nos cabe, como espíritas, o esforço de compreender que o outro só fez o que fez porque não sabe fazer melhor e, um dia, fará. Cárita ressalta que “pode-se ser caridoso mesmo com os parentes, com os amigos, sendo indulgentes uns com os outros, perdoando as suas fraquezas e tendo o cuidado de não ferir o amor-próprio de ninguém” (Cap. item 14). Mas, por que não é tão fácil ser indulgente com as fraquezas dos outros?

 

SERÁ QUE O MAL ESTÁ EM NÓS?

A indulgência com relação aos outros deve ser um esforço constante em nossos relacionamentos, se quisermos encontrar a felicidade, pois o que não percebemos é que essa contínua cobrança sobre as atitudes do outro é reflexo ainda do nosso próprio desajuste.

Ilustrando essa ideia, analisemos esta historinha: “Marta e Beatriz, duas irmãs viúvas, moravam na mesma casa. Marta era uma dessas pessoas que reclamam o tempo todo. Beatriz, entretanto, escutava a irmã serenamente, sem nada retrucar. Dia após dia era a mesma situação: Marta reclamava e Beatriz escutava em silêncio… Até que um dia receberam a visita de uma amiga em comum que ficou indignada depois de presenciar tanta murmuração. E ela perguntou para Beatriz como conseguia aguentar aquela convivência com Marta sempre a reclamar. Beatriz respondeu: “Eu não ligo, não é comigo mesmo”! Só havia as duas naquela casa, mas Beatriz não tomava para si a reclamação da irmã, pois sabendo que ela estava sempre de mal com a vida, todas as suas reclamações só podiam ser para si mesma”. É muito comum nos consultórios psicoterápicos as queixas iniciais contra o outro revelarem a origem do conflito no próprio queixoso. O desagrado excessivo para com os outros, associado ao desejo de controle, posse ou reconhecimento, revela uma insatisfação interna e, talvez, um desejo oculto de ser o que não consegue ser.

Assim, quem está “resolvido”, consciente das suas emoções, não se preocupa em suportar outro, mas servir de suporte. Muitos exemplos se apresentam em nossa vida para nos estimular a fazer o mesmo e a considerar que estamos aqui, neste mundo, para aprendermos a servir de sustentação, uns dos outros. Certamente, tudo ficaria melhor se nos ajudássemos, mutuamente, aprendendo a viver com as diferenças e com os incômodos que os outros nos causam, ajudando sempre cada um a ser melhor a cada dia. Podemos crer, pelo muito que nos foi oferecido, que já podemos fazer mais do que a Beatriz desta historinha, já podemos auxiliar as pessoas, como Marta, a prestarem atenção em suas próprias dificuldades e carências, muitas vezes, com uma indagação aparentemente sem propósito: “– Já prestou atenção qual o verdadeiro motivo do seu mau humor”? E, “se sobreviver aos espinhos”, apresentar a Doutrina que nos esclarece, ou, no mínimo, fazer uma prece a seu favor.

Antonio de Aquino, esse Benfeitor querido que tanto ilumina os bons sentimentos em nossos corações, nos diz: “Uma sociedade como a nossa, que se forma, pede companheiros bons, mas atrai companheiros infelizes. E os infelizes são aqueles que cobram comportamentos, porque justamente não são capazes de avaliar a sua própria inferioridade. E os que estão perseverantes no Evangelho, no estudo, na compreensão, na difusão, no trabalho, enfim, estes modelam tais almas pelos exemplos que dão, pelo comportamento equilibrado e pelo gesto contínuo de amor ao próximo”.

Esse é um bom momento para analisarmos em que situação nos encontramos: se estamos agindo como bons companheiros de suporte ou, ainda, como companheiros infelizes que não suportam, cobrando comportamentos.

 

SERÁ QUE SOMOS PUBLICANOS REDIVIVOS?

Os antigos judeus traziam uma crítica severa aos Publicanos que, na época de Jesus, cobravam os impostos de maneira abusiva. Podemos, hoje, refletir, mais conscientemente, se estamos assumindo um papel parecido, cobrando, “de maneira abusiva”, os comportamentos que esperamos das pessoas com quem convivemos, esquecendo suas dificuldades, desejos, gostos e necessidades. Será que somos publicanos redivivos, “Cobradores de Comportamentos”?

Façamos uma revista em nossas ações em relação aos companheiros de caminhada e vejamos se estamos constantemente cobrando o que, muitas vezes, eles nem são capazes de fazer, só para nos satisfazermos, mesmo que no momento seguinte aquilo já não seja do nosso agrado. Aprendamos a cobrar melhores atitudes de nós mesmos. Buscando o autoconhecimento encontraremos o que precisa de reforma em nós, e, como uma gotinha caindo num lago, nossas ações reformadas atingirão todos ao nosso redor e estaremos melhorando o mundo em que vivemos.

Atualmente, até em alguns ambientes de trabalho, há o esforço para manter a boa convivência que se reconhece como bom relacionamento interpessoal e boa comunicação, aumentando o aproveitamento das ideias diferenciadas. Percebeu-se que as pessoas intolerantes geram uma mobilização afetiva negativa no ambiente de trabalho e, se identificadas nas entrevistas psicológicas para emprego com a síndrome do “EUquipe”, serão consideradas inabilitadas para o sistema, razão por que muitos não conseguem empregos e não sabem o porquê, apesar de cumprirem, aparentemente, os requisitos na seleção. Quando se considera as diferenças e as novas sugestões, têm-se encontrado soluções mais simplificadas e práticas para problemas inicialmente complexos. O esforço tem sido para não desprezar opiniões. O progresso está, em verdade, em aprender a servir e confiar em si e no outro.

Aprender a conviver com os diferentes é aprender a conviver com os iguais, pois, na verdade, todos somos um! Se assim nos considerarmos, somaremos esforços para um mundo melhor, mais humanizado, livre de tantas angústias e aflições, e repleto de compreensão e auxílio mútuo.

Há uma frase que expressa o nosso real valor e o valor do outro em nossas vidas: “Nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos”!

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Bibliografia

 

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: CELD, 2008.

______________. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: CELD, 2008.

AQUINO, Antonio. [Psicografado por Altivo Carissimi Pamphiro] Inspirações do Amor Único de Deus – vol 2. Rio de Janeiro: Editora CELD.

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