Depressão: quando a dor bate…

publicado em 10 outubro de 2017 • Bianca Cirilo

O Espiritismo surgiu como uma proposta de despertar da consciência em sua profundidade. O que seria isso? Ele foi revelado como um instrumento de retomada dos processos de distração e falta de amar a si mesmo, visto que infelizmente, apesar do convite cristão, fomos esquecendo o nosso valor e o remédio infalível ensinado por Jesus há tanto tempo.

Entretanto, amor é um sentimento gradual cuja expressão se aprimora à medida que nós aprendemos a aceitar que ele é o único afeto, por assim dizer, que nos religa à nossa essência e certamente faz com que resgatemos o sentido da vida. Em O Evangelho Segundo Espiritismo, encontramos as reflexões fecundas que nos apresentam o amor como lei natural, logo, como algo que não podemos ir contra; indo além, como afeto primordial à sobrevivência tanto no plano físico quanto no plano espiritual. Já que ele evoluiu das sensações aos sentimentos mais nobres e ainda inalcançáveis à nossa compreensão, sabemos que ele é o único caminho a ser seguido e isso nos traz um alerta à mudança de percepção da vida, das pessoas e de nós mesmos.

Sem compreendermos o papel do amor como matéria-prima primordial de movimentação da vida no âmbito coletivo e pessoal, jamais conseguiremos superar essa distração de nós mesmos, que nos machuca e nos complica. Essa distração significa que passamos muito tempo investindo no que não somos, transformando o que é transitório em permanente, daí surge a decepção. Isso se dá exatamente porque esquecemos que no plano físico estamos exercitando, estamos buscando pôr em prática as lições aprendidas e trazidas como ferramentas de melhoria e conquista da paz íntima na direção do encontro com o Mestre.

 

Origens da depressão.

A decepção nasce de inúmeros equívocos, talvez o principal deles seja acreditar que vivemos para fugir da dor. Essa crença infantil cria ilusões de que viver é buscar prazer o tempo inteiro e quando isso não acontece, nos sentimos derrotados, tristes e deprimimos em nossa marcha. Deprimir teria o sentido de abater o espírito que somos. Vivendo iludidos acerca de quem somos, certamente, acabamos por encontrar o vazio, insistindo em comportamentos e hábitos que não nos preenchem a alma, pelo contrário, produzem mais angústia e mal-estar.

No capítulo sobre a paciência (E.S.E) cita-se muitas vezes que “a vida é difícil, eu sei; Ela se compõe de mil insignificâncias que são como picadas de alfinete que acabam nos ferindo”. Por que isso acontece? Justamente porque reforçamos, em nossa rotina atitudes e afetos que nos distanciam de nossa identidade e interioridade. Vivemos na superfície quando a vida é um convite a aprofundar o olhar, ampliando nossos níveis de consciência sobre  o que efetivamente estamos fazendo aqui, o sentido da existência, da convivência. Mais à frente, ainda nesse item sobre a paciência o espírito que assina apenas como Um Espírito Amigo, nos convida a erguer o olhar para verificar que as bênçãos são maiores que as dores e isso dependerá sempre da mudança de nosso ponto de vista.

Outro aspecto que dificulta nossa capacidade de lidar com a dor está em reprimi-la, gerando depressão devido à culpa e à exigência descabida para conosco. Muitos tendem a condenar em si seus sentimentos por julgá-los nocivos. Sentimentos desagradáveis nascem porque necessitamos aprender a olhar para nosso interior no exercício do autodescobrimento seguido de respeito por si mesmo. Porém, nossa insistência em viver contra a nossa sensibilidade espiritual, pegados em valores que nos sabotam, faz com que a experiência pessoal se torne, muitas vezes, insuportável.

O Espírito Hammed diz que “É preciso saber lidar com nossas emoções, não devemos nos censurar por senti-las, mas sim julgar a decisão do que faremos com elas”. Sendo assim, quando percebemos a presença de afetos qualificados como negativos, pelo desconforto que nos causam, devemos recebê-los como alertas contra o abandono de nós mesmos, as cobranças pesadas frente ao que ainda não conquistamos e desconhecimento de si. Ficaremos deprimidos, segundo ele, se assim não agirmos.

Essa falta de intimidade como nosso mundo interior gera ilusões, distorções da realidade e uma maior vulnerabilidade ao que vem de fora. Com isso, aquele que se nega a criar consigo mesmo uma maior aproximação tenderá a buscar nas relações externas aprovação social, apoio dependente e, certamente, se tornará mais suscetível à opinião alheia, sendo direcionado pelos valores dos outros, e por fim, pelo que não necessariamente lhe serve. Por medo de perder, aquele que assim age não reconhece em si suas potencialidades e vive à sombra dos outros, agindo conforme as convenções e aquilo que é ditado pelo modismo, pelo achismo e assim por diante.

Hammed ainda esclarece que não devemos nos deprimir pelas faltas cometidas no passado, pois estamos na condição de alunos. Por isso há certas coisas que não conseguimos absorver, por demandarem processos reencarnatórios contínuos na busca do amor pleno com Jesus. Cada falta é um sinal de que devemos estar mais atentos ao nosso ritmo, criando processos de superação disciplinada, mas com amor, sem exageros e tirania para conosco.

 

Quando a dor bate…

Quando somos machucados, as emoções que brotam desse processo servem como defesa para que possamos nos cuidar; estar mais atentos ao que temos permitido que os outros nos façam e rever a maneira como temos nos relacionado com as pessoas. Pessoas com baixa autoestima tendem a projetar nos outros as qualidades e esquecem de ver em si mesmas suas conquistas. Idolatram seres humanos que são falíveis e sujeitos às mesmas quedas e criam expectativas ilusórias com relação aos outros.

Jesus nos ensinou a amar os outros como a nós mesmos e isso é um convite profundo de recuperação do sentido da vida que fomos perdendo ao longo das encarnações difíceis que tivemos, quando nos desequilibramos, sofremos e fizemos o outro sofrer. Por isso, é preciso retomar esse convite para recuperarmos nosso verdadeiro lugar na vida: o de filhos de Deus, portanto, seres completamente capazes de desenvolver sentimentos nobres e elevados – demore o tempo que for.

A nobreza desses sentimentos depende, por sua vez, da nossa vontade em não compactuar com o estado de desânimo e abatimento que as lutas da vida e a convivência diária acabam estimulando, quando perdemos o foco da existência e nos distanciamos do sentido da encarnação. O Livro dos Espíritos, na pergunta 132, diz que um dos objetivos de nosso retorno à vida corporal seria fazer com que tomemos a nossa parte que nos cabe na Obra da Criação. O que seria isso?

Primeiramente, seria aprender a aceitar que a vida é intransferível, que somos uma individualidade espiritual herdeira de si mesma, ou seja, precisamos focar na nossa evolução e aprender a abrir mão de “consertar os outros”. Com isso, desistir da maledicência e da decepção que é gerada por desenvolvermos expectativas frente ao que as pessoas fazem ou deixam de fazer. Segundo, seria compreender que não estamos aqui para alimentar decepções e mágoas, pois elas refletem o retorno do que nós mesmos fizemos conosco, outrora, quando esquecemos a lei divina por algum motivo. Sendo assim, a dor é o resultado do efeito bumerangue, logo, quando dói devemos assumir a responsabilidade por esse retorno e sair da posição de vítimas, o que, comumente, fazemos.

 

Como então sair desse ciclo de dor?

Ermance Dufaux, através da mediunidade de Wanderley Oliveira, trabalha a questão das emoções curativas, ou seja, do quanto devemos desenvolver o autoexame dos nossos afetos e sentimentos, pois eles são como bússolas que nos levam a navegar dentro de nós, nos desnudando e, ao mesmo tempo, permitindo que nós aproximemos mais de nós mesmos. Na obra Emoções que Curam, encontramos um manancial de bênçãos fundamentais para a superação da dor, assim como em tantas outras obras espíritas consoladoras. Porém nesta obra, identificamos recursos específicos voltados à melhoria psicológica. No caso da dor evoluindo para processos depressivos, portanto, mais demorados do ponto de vista da cessação do sofrimento, podemos destacar algumas reflexões de Ermance muito oportunas ao nosso crescimento emocional. A autora espiritual menciona três tipos de ilusões que parecem fortemente relacionadas às dificuldades afetivas, de um modo geral, cuja relação com o desenvolvimento de estados depressivos parece notória.

A primeira delas estaria no equívoco de acreditarmos que “nosso amor é capaz de modificar quem nós amamos”[1] (Dufaux, 2013:54). Esta crença, no fundo onipotente, sustenta-se numa postura de um suposto poder de resolver, para os entes queridos, o que cabe a eles resolver. Disfarça-se de amor, porém, fundamenta-se num grave controle de querer gerenciar a vida do outro. Com isso, anulamos o poder intransferível que cada um tem de assumir a responsabilidade pela própria vida e evolução, segundo a mentora em questão.

A segunda ilusão “é acreditar que somos responsáveis pelas escolhas de quem amamos”. Isso significa que o verdadeiro amor enaltece as virtudes do ser amado e não tenta modificar suas dificuldades. Sentir-se responsável pela mudança alheia gera uma postura equivocada de sacrifício desnecessário, pois com isso, deslocamos nossas forças destinadas à própria transformação, gerando o abandono de si mesmo. O dispêndio de energia gasta na ilusão de que podemos mudar alguém é a cota intransferível que deveríamos estar utilizando a favor da nossa evolução. Relembrando o próprio objetivo da encarnação na pergunta 132, de O Livro dos Espíritos, como já citamos, é fazer com que nos detenhamos na parte que nos cabe. Desta forma, ajudar não significa tomar a vida do outro como sendo a nossa, fazer isso, ao contrário, é orgulho e prepotência.

Quanto à terceira ilusão seria “acreditar que amar é creditar à pessoa amada uma importância maior do que a nós próprios”. Segundo Ermance Dufaux, essa atitude é a que, de fato, origina a depressão, visto que, fatalmente, produz grave abandono de si mesmo. Com isso, vamos trocando as prioridades pessoais pela satisfação doentia das necessidades alheias. A mentora destaca que existe na lei da Natureza uma capacidade de auto amor da qual todos são dotados, mesmo que o outro não nos ame, referido ao que Jesus já ensinou. Poucos de nós acreditam nisso ou se dão conta de que devem se respeitar e se amar profundamente. Segundo ela, “a lei da Natureza nos prepara para a autossuficiência e mesmo havendo a lei de sociedade na qual nos amparamos mutuamente e cooperamos uns com os outros, fomos dotados de recursos auto imunizadores para sobreviver independentemente do amor alheio. Se colocamos alguém como a pessoa mais importante da nossa existência, estamos na contramão da evolução”.

Essa afirmativa vem sendo confundida com egoísmo. As alegações para que essa prática não seja adotada está na falsa ideia de que o Espiritismo combate o cuidado consigo mesmo. Se o próprio Cristo declarou que o amor é algo a ser vivido na direção de si mesmo e do outro, como podemos amar alguém se não nos amamos ou procuramos saber com mais propriedade o que isso significa, afinal?

Os Espíritos elevados se dedicaram a amar incondicionalmente justamente porque já conquistaram o amor por si mesmos ou estão mais próximos desse estado; se não fosse assim estariam cobrando de seus beneficiários a sua dedicação. Então, por que nos deprimimos? Exatamente por ainda não compreendermos que devemos desenvolver o amor verdadeiro por nós, cuidando da nossa parte intransferível, ou seja, do nosso progresso e do nosso crescimento como filhos de Deus. Para isso, precisamos parar de responsabilizar os outros pelas nossas dores e fracassos. Se alguém nos feriu, vejamos isso como um aprendizado, como retorno das escolhas equivocadas. Por fim, agradeçamos a Deus pelo ensinamento e não recebamos no íntimo o veneno das investidas infelizes.

 

Sejamos nós os primeiros a doar o que esperamos que venha de fora.

Assumir para si que é responsável pela própria felicidade, zelo e apreço fortalece a autoestima. Quantos enunciam palavras depreciativas sobre si mesmos e vivem fazendo propaganda negativa da própria pessoa? Se por um lado enaltecer publicamente nossas qualidades não é oportuno, conveniente e denota vaidade, por outro lado, fazer pregações destrutivas a respeito de si mesmo também pode sugerir necessidade de mostrar-se vítima ou chamar, de alguma forma, a atenção dos outros para si.

A depressão nasce porque muitas vezes aquele que padece de tamanha dor, em algum momento, quis realizar-se através de alguém, das ações alheias e frustrou-se pelo óbvio não admitido: ou seja, ninguém pode fazer por nós o que somente cabe a nós. Amar, conviver e trocar boas impressões é fundamental, sem esquecer que ninguém pode atender às nossas verdadeiras expectativas evolutivas. Deus nos criou como cocriadores, responsáveis pelo próprio progresso, por isso, devemos rever nosso nicho de exigências, de desejos e examinar se nosso sofrimento não está sendo alimentado pelas nossas ilusões, principalmente aquele de que para sermos amados precisamos agradar os outros o tempo todo.

Tentar agradar significa acreditar que aquilo que somos seria mais belo do que aquilo que aparentamos. Na maioria das vezes, a depressão é uma teimosia em não querer ser feliz, porque criamos uma ideia de felicidade infantil, romanceada e contaminada por aprendizados midiáticos. Fabricamos uma vida afetiva, superficial e cheia de produtos descartáveis. Como efeito disso, nos sobra lamentavelmente uma sensação de inadequação no mundo, mesmo depois de termos alcançado o que julgávamos ser o ideal. Nosso poder de transformação é tão grande, doado por Deus, nosso Pai, que é justamente por isso que, devemos estar atentos aos processos de dispersão da nossa consciência, nos retirando do nosso centro e da nossa proposta evolutiva.

Enquanto não aprendermos a aceitar que a dor é o sinal divino a nos convidar ao retorno da própria caminhada luminosa, cheia de esperança como herdeiros do Universo, estaremos disputando um espaço que não é nosso, inquietando-nos com o que não retemos definitivamente e, o que é pior, jogando fora o néctar poderoso enunciado por Jesus na rogativa de que somos deuses. Sendo assim, por que não mudar, por que não se surpreender com novos e melhores resultados?

[1] Citação presente no livro Emoções que Curam, pelo Espírito Ermance Dufaux.

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