Dores e Decepções

publicado em 15 agosto de 2017 • Alexandre Bentes

Por Alexandre Bentes

 

Não será preciso um olhar muito apurado para observar o sofrimento à nossa volta. A dor se alastra visitando lares, escolas, hospitais, caminha pelas ruas, frequenta condomínios de luxo, não se intimida com festas ou datas solenes. Um breve olhar e nos certificaremos de que ela está em toda parte. No entanto, qual será, sob o ponto de vista espírita, a desgraça real? A perda de um ente querido? O desemprego? Uma doença grave? A miséria? As privações?

Nossa mente se inquieta frente à dor e é fato que esta, de modo geral, nos incomoda, e dela buscamos nos afastar ou, na medida do possível, permanecerem semelhante condição o menor tempo possível. Diante dela, no entanto, revelamos muito do que somos ou conquistamos enquanto espíritos. Será bastante proveitoso refletirmos sobre a nossa postura diante do sofrimento no exercício do conhecimento de si mesmo.

Como devo me comportar diante da dor? Que lição posso tirar de um episódio doloroso?  A adversidade implica necessariamente sofrimento?

Léon Denis, em seu livro “Depois da Morte” afirma que “é no crisol da dor que se depuram as grandes almas”. Estas “grandes almas”, arriscaria em dizer, são as mesmas que, há anos, nos sugerem, por meio de depoimentos e exemplos diversos, a resignação diante da adversidade.

Para adotarmos, de boa mente, essa postura sem disfarces de inércia ou pessimismo, precisamos compreender o papel da dor. Mas será que temos essa consciência?

Já sabemos que o objetivo da reencarnação é o progresso do espírito e aprendemos que as dificuldades e vicissitudes da vida são veículos para se alcançar este progresso. Ela nos coloca na condição de exercitarmos a nossa fé, nosso raciocínio, nossa paciência, nossa perseverança, e, especialmente, nossa humildade. No entanto, constatamos que, nestes momentos difíceis, nos irritamos e tomamos atitudes precipitadas, justamente quando deveríamos, em verdade, usar de cautela e vigilância para que a exasperação não comprometesse os benefícios que um episódio doloroso pode trazer na acústica da alma em seu processo regenerador.

Por que, então, apesar do nosso conhecimento, continuamos a murmurar diante da dor? Qual é a nossa dificuldade em aplicar estes conhecimentos?

Precisamos exercitar nossa visão, aprendera enxergar as situações difíceis, como espíritos imortais que somos, lembrando que o sofrimento nos submete a uma disciplina moral que retempera o caráter, e que a experiência adversa é um acelerador do progresso.

É fundamental encararmos o momento da dor como uma grande oportunidade de refazimento e conquistas.

Outro fator importante concernente à dor é que aquele que já sofreu compreende e é mais sensível à dor do outro; neste quesito, podemos nos ver realmente como irmãos, nos reconhecermos em nossa fragilidade. Se não sofrêssemos nem males nem reveses, estaríamos entregues às paixões; nosso orgulho e egoísmo se insuflariam e,consequentemente, amontoaríamos “faltas novas sobre faltas passadas”.

Léon Denis, sobre isso, afirma que “a desgraça será então tudo o que manchar, tudo o que aniquilar o adiantamento, tudo o que lhe for um obstáculo”. E enfatiza: “Oh! Vidas simples e dolorosas, embebidas de lágrimas, santificadas pelo dever; vidas de lutas e de renúncia, existências de sacrifício para a família, para os fracos, para os pequenos, mais meritórias que as dedicações célebres, vós sois outros tantos degraus que conduzem a alma à felicidade. É a vós, é às humilhações, é aos obstáculos de que estais semeadas que a alma deve sua pureza, sua força, sua grandeza.Vós somente, nas angústias de cada dia, nas imolações da matéria, conferis à alma a paciência, a resolução, a constância, todas as sublimidades da virtude, para então se obter essa coroa, essa auréola esplêndida, prometida no Espaço para a fronte dos que sofrem, lutam e vencem!”

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