Homossexualidade: uma perspectiva espírita

publicado em 11 janeiro de 2018 • Saulo Monteiro

Haveremos, com muita justiça, de concordar que as questões da diversidade da sexualidade humana são um desses aspectos consequentes ao planejamento reencarnatório, necessariamente. Ver-se numa condição corporal que não corresponde à sua psique ou antes disso, ver-se atraído por determinado homem ou mulher que lhe caracterize certo risco social, por conta do preconceito, certamente constitui-se uma das mais difíceis provas por que pode passar um ser nesse campo da sexualidade. Uma prova dessa natureza não poderia deixar de estar no planejamento feito para a encarnação.

Allan Kardec, preocupando-se com o tema e procurando as distinções entre essência e aparência, perguntou em O Livro dos Espíritos:

200. Os espíritos têm sexos?

“Não como o entendeis, pois os sexos dependem da organização. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na semelhança dos sentimentos.”

201. O espírito que animou o corpo de um homem pode, numa nova existência, animar o de uma mulher e reciprocamente?

“Sim, são os mesmos espíritos que animam os homens e as mulheres.”

202. Quando se é um espírito errante, prefere-se encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher?

“Isso pouco importa ao espírito; dá-se em função das provas por que haja de passar.”

Fica evidente que do ponto de vista espírita sexo é uma aparência, que durará o tempo em que a necessidade de provar-se durar. Precisando passar por diversas encarnações distintas e recolher de cada uma delas o aprendizado que está ou aquele gênero lhe conferem, o espírito define a polaridade em vai mergulhar, a cada encarnação.

Se por um lado, isso nos leva a compreender que no fim do processo o espírito é um ser assexuado, ou seja, sem polarização, já que terá apreendido o que ambas as experiências podiam lhe conferir, por outro concluímos com certa facilidade que durante o processo, ou seja, na fase em que se reencarna sucessivamente, o espírito terá quase sempre certa preferência, por este ou aquele gênero, consequência da quantidade e da qualidade de suas últimas experiências.

Dificilmente o espírito passando, por exemplo, por algumas dezenas de reencarnações sucessivas em corpo feminino, conseguirá adaptar-se de pronto à polaridade masculina quando a hora desta experiência soar. Foi o que Kardec concluiu em interessante texto publicado na Revista Espírita: “Se essa influência da vida corporal repercute na vida espiritual, o mesmo se dá quando o Espírito passa da vida espiritual para a corporal. Numa nova encarnação, ele trará o caráter e as inclinações que tinha como Espírito; se ele for avançado, será um homem avançado; se for atrasado, será um homem atrasado. Mudando de sexo ele poderá, portanto, sob essa impressão e em sua nova encarnação, conservar os gostos, as inclinações e o caráter inerentes ao sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes[1], notadas no caráter de certos homens e de certas mulheres[2].

O trecho grifado nos mobiliza uma interessante reflexão, pois Kardec, em 1866, com uma mente progressista e ousada, falou em anomalia aparente, ou seja, não se trata de diferença essencial, e muito justificada no campo da reencarnação. Vai parecendo, como alguns estudiosos já concluíram, que a orientação sexual do individuo na Terra é mero detalhe, estando o essencial muito mais atrelado ao que se faz da sexualidade do que àquilo que se está. Hetero ou homossexual, são condições circunstanciais, passageiras, enquanto que aquilo que fazemos de nós mesmos e dos outros no campo de nossa sexualidade, esses sim, são elementos formadores de nosso caráter.

[1] Grifo nosso

[2] Revista Espírita, janeiro de 1866. As mulheres têm alma?

Leia o artigo na íntegra na Revista Celd de Janeiro 2018.

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