Lugar de mulher é onde ela quiser

publicado em 16 agosto de 2017 • Saulo Monteiro

Por Saulo Monteiro

A perspectiva adotada por Allan Kardec em seu texto “A mulher tem alma?”, na Revista Espírita de janeiro de 1866 é ousada para sua época e ainda necessária hoje do ponto de vista social. Além disso, quanto à opinião espírita, esse texto será sempre basilar em termos da discussão de gênero. Nossa proposta com esse artigo é apontar alguns caminhos acerca da relação Espiritismo e feminismo, partindo da premissa do texto citado, relacionando-o com relatos e vivências do mundo do século XXI

Por que feminismo?

Fala-se muito em empoderamento feminino e alguns de nós, homens, veem a questão como “exagero” ou “revanchismo”. Mas pense com alteridade, coloque-se no lugar do outro: durante séculos e séculos (e infelizmente em vários níveis ainda hoje), o gênero feminino foi minimizado a objeto, seja de prazer, seja de serviço; durante diversas idades da história humana a mulher foi tida como incapaz, como mera reprodutora ou como coadjuvante da vida masculina, tendo como missão exclusiva ou ao menos principal, cuidar da casa e dos filhos.

Parto do princípio que toda minoria ou classe historicamente ultrajada, excluída, ao dizer-se desconfortável, deva ser ouvida. Ora, se fiz um comentário que segundo uma mulher, soou machista, preciso reconsiderar, pelo simples fato de a ter incomodado. Perceba que há diferença entre isso e a simples opinião que alguém emite sobre mim – ora, o que dizem de mim pode ou não ser verdade e preciso avaliar com lucidez se a observação merece atenção (e reforma) ou não. Mas se alguém se diz atingido em sua integridade, preciso dar razão. E nesse caso pela carga cultural, histórica, que aquela pessoa ou grupo representam. Preciso respeitar um sentimento que mesmo causado por algo inconsciente, remonta às mais distantes práticas preconceituosas e excludentes que a sociedade já considerou um dia como normal.

Talvez por um exemplo me faça entender melhor: fui a um casamento religioso em que noiva foi quem aguardou no altar, enquanto o noivo entrou ao som da marcha nupcial levado por sua mãe; muitas pessoas ficaram escandalizadas com a inovação e foi um burburinho só. A intenção do casal foi provocar a seguinte reflexão: você já pensou que essa coisa de o pai entregar sua filha no altar ao noivo é machismo? Ou seja, um homem, dono de uma mulher, entrega a sua posse ao novo mandatário do pedaço. Pode parecer um exagero, mas realmente o casamento vem com esse apelo, bastando lembrarmos que há pouco tempo pagava-se dote, a quem desposasse sua filha ainda com acréscimo dos custos das festividades, que em geral eram da família da noiva. Pense você como pensar, há de reconhecer que há, sim, machismo embutido nessas práticas.

O fato é que o feminismo vem lutar por algo que deveria ser (ainda mais hoje) algo muito natural para todos nós – a igualdade dos gêneros – mas que ainda não o é. Trata-se de reconhecer direitos e expandi-los, quer seja no mercado de trabalho, quer na concepção de família. Como assevera Kardec, essa conquista de direitos precisa ser algo durável e legitimado e não um favor do homem:

“(…) sua libertação parcial é apenas resultado do desenvolvimento da urbanidade, do abrandamento dos costumes ou, se quiserem, de um sentimento mais exato da justiça; é uma espécie de concessão que lhes fazem e, é preciso que se diga, que lhes regateiam o mais possível”                                                                                                                  Allan Kardec – RE jan/1866

 

O papel da mulher

O admirável em Kardec (dentre outras coisas) é a visão por antecipação, aquela capacidade de entrever o que ainda está por vir. Diz ele sobre a igualdade de posição social entre homens e mulheres:

“Notemos, de passagem, que se esta igualdade não passar de uma concessão do homem por condescendência, aquilo que ele der hoje pode ser retirado amanhã, e que tendo para si a força material, salvo algumas exceções individuais, em massa ele sempre levará vantagem. Ao passo que se essa igualdade estiver na Natureza, seu reconhecimento será o resultado do progresso e, uma vez reconhecido, será imprescritível”.  Allan Kardec – RE jan/1866

Não se trata, portanto, ou não se pode tratar somente de gerar compensações sociais ou ainda menos de “pagar” as injustiças de outrora, mas de reconhecer a natureza da igualdade entre os gêneros, de modo que as conquistas não sejam concessões feitas pelo homem num tabuleiro de equilíbrio de forças, mas a construção consciente de uma igualdade na melhor acepção desta palavra.

Por isso diz-se muito bem que “lugar de mulher é onde ela quiser”, de modo que sua atuação na vida precisa ser fruto de seu livre-arbítrio e não imposições sociais ultrapassadas que acabam por desconsiderar importantes verdades claras como essa:

“Não existe, pois, diferença entre o homem e a mulher, senão no organismo material, que se aniquila com a morte do corpo; mas quanto ao Espírito, à alma, ao ser essencial, imperecível, ela não existe, porque não há duas espécies de almas. Assim o quis Deus em sua justiça, para todas as suas criaturas. Dando a todas um mesmo princípio, fundou a verdadeira igualdade. A desigualdade só existe temporariamente no grau de adiantamento; mas todas têm direito ao mesmo destino, ao qual cada uma chega por seu trabalho, porque Deus não favoreceu ninguém à custa dos outros”.   Allan Kardec – RE jan/1866

Alguém poderia estar imaginando a esta altura: mas e as funções? Não diferenciam homem e mulher definitivamente? Pensemos com Kardec e como Espíritos, deixando, portanto, de lado a referência social passageira, para termos como condutora, a nossa natureza espiritual, verdadeira.

Leia o artigo na integra na Revista Celd – edição de agosto de 2017.

Peça o seu exemplar:

21 – 2452-7700 ou pelo e-mail: [email protected]

Deixe uma resposta