Quebrando o tabu: como lidar com as dúvidas sobre sexualidade na infância?

publicado em 13 setembro de 2017 • Selma Trigo

Por Selma Trigo

 

Conceituar sexualidade é muito amplo, pois ela faz parte da vida do indivíduo desde que nasce através da amamentação do bebê junto ao seio de sua mãe, como também, no sentir o calor da mãe junto ao seu corpo que o acolhe.

A sexualidade não envolve só sexo em si. Está implícita na afetividade e na maneira como cada um se relaciona consigo mesmo e com os outros, através do toque (beijos, abraços e palavras afetuosas). É uma necessidade básica e natural que não pode ser separada de outros aspectos da vida.

Eurípedes Barsanulfo, em uma de suas citações nos esclarece que: “A criança e o jovem devem ser educados como espíritos e não mais como corpos materiais (…) Pautado nessa visão educativa de Eurípedes, nós educadores de espíritos (pais, responsáveis, professores e evangelizadores) precisamos estar preparados para melhor compreender e atender às necessidades das crianças e jovens em todos os seus aspectos.

Podemos iniciar com a Doutrina Espírita, que nos oferece possibilidades no que tange a educação do Espírito, favorecendo assim, uma visão mais ampla e consistente para que o educador possa melhor agir junto ao processo educativo. E quando somamos ao conhecimento teórico de Piaget, no que tange as etapas do desenvolvimentoda inteligência, essa possibilidade favorece sobremaneira, a compreender quanto à criança como individualidade espiritual, quese manifesta em cada existência, construindo e reconstruindo sua bagagem milenar, onde seus impulsos, tendências e aptidões refletem seudesenvolvimento evolutivo como Espírito.

A falta ou limitação da educação formal e principalmente da educação espírita, leva os educadores a inúmeras dúvidas e desacertos, promovendo muitas dificuldades no processo educativo, principalmenteno que se refere às questões da sexualidade.

É importante observar que a criança tem a fase da própria descoberta onde percebe, à medida que cresce, as diferenças em seu corpo e começa a apreciá-lo como algo novo. É como estar desvendando um mundo em si mesma pelas sensações que descobre e que antes não sentia. Os pais ao perceberem, devem agir com naturalidade, promovendo uma ação que possibilite à criança a compreensão, sem reações que possam deixá-la desconfortável ou confusa.

Um aspecto a ser observado, é a fase dos porquês. É o início do despertamento da criança na percepção gradativa do mundo que a rodeia, onde sai da fase do egocentrismo que vivia consigo mesmo e seu próprio imaginário. Por isso, os pais precisam estar atentos à “leitura de mundo” que o professor Paulo Freire sempre reforçou, que são momentos de descobertas da própria existência. É extremamente significativo e enriquecedor para a criança quando os pais vivenciam junto a ela, as “curiosidades” ou “dúvidas”, sanando as questões relacionadas à sexualidade, sem constrangimento, hesitação, fantasias ou fugas do assunto, mas através de uma ação natural nas respostas, olhando a criança como um Espírito, que veio para ser esclarecido, e que traz um corpo que o compõe na encarnação, que sofre mudanças, que ela desde cedo registra, na medida de seu despertamento.

Falar de sexo deve ser visto como um dos muitos outros assuntos que precisam ser conversados sem receios. Vamos pensar assim: são temas pedagógicos que fazem parte do currículo da vida do Espírito, que o educador responsável, precisa estar preparado a desenvolver, para que esse Espírito possa passar por cada etapa de sua existência de forma confortável, onde o equilíbrio seja o recurso do despertamento da própria autonomia no campo psíquico-emocional.

 

 

Alguns pais poderão se perguntar: será que informações sobre sexo são pertinentes nas fases iniciais da vida de meu filho?

Ao contrário do que possam pensar alguns pais, as crianças esclarecidas no momento certo no campo da sexualidade, tendem a agir com mais naturalidade e responsabilidade com relação à sua vida sexual no futuro, buscando viver com equilíbrio, até porque sua curiosidade natural vai sendo saciada, gradativamente, de forma devida.

Além disso, a infância é a fase do armazenamento para absorção de novos conteúdos, promovendo no Espírito uma reorganização nas estruturas mentais já existentes, pois a infância é uma fase importante para o Espírito.

A aprendizagem na fase infantil necessita de várias repetições importantes, para que a mente possa fazer uma filtragem natural dos conteúdos transmitidos, pelo campo da inteligência. Assim a educação se processa. Assim sendo, é muito importante a atitude dos pais ao responderem às perguntas utilizando um tom de voz adequado, segurança nas informações, estarem à vontade no responder, tudo isto é captado pela criança e, principalmente, pelo jovem, o que os levarão a sentirem-se seguros ou não mediante amadurecimento de cada etapa de desenvolvimento.

É importante esta troca entre pais e filhos, pois a segurança pelo esclarecimento desperta a confiança nas relações e estreitam de forma significativaa afetividade entre as partes.

Já na fase da adolescência, a forma como observamos a sexualidade como as demais transformações que decorrem dela, é extremamente importante para que se possa perceber e identificar as expressões reveladoras para melhor direcionamento educativo do processo, pois na medida do desenvolvimento do Espírito, é possível observar o perfil de personalidade e impulsos oriundos do campo da sexualidade na proporção em que vai alcançando a adolescência.

André Luiz, no livro Missionários da Luz, nos diz que a “glândula pineal é a glândula davida mental”. Isso quer dizer que o organismo na puberdade favorece a eclosão da força criadora do Espírito, através do “desabrochar” desta glândula em suas atribuições essenciais. É onde o Espírito expressa suas tendências no campo das sensações e impressões emocionais registrados em vidas passadas. Daí a recapitulação natural da própria sexualidade, onde as experiências de vidas neste contexto reaparecem sob fortes impulsos.

É neste momento que o educador que conhecea Educação na visão Espírita, torna-se favorecido no processo educativo, pois compreende que a energia criadora é energia que compõe o Espírito e que à medida que evolui a modifica, qualificando sua própria essência do existir. Assim sendo, o próprio Espírito é responsável pelo cuidado do corpo que lhe é oferecido, como instrumento no processo educativo de cada existência vivida.

A definição do Espírito quanto à sua sexualidade está diretamente ligada às experiências nas experiências anteriores e consequentemente, à necessidade que o Espírito, como individualidade, reclama na sua construção física da atual encarnação.

Como a jornada evolutiva se dá pelo pensamento, onde o Espírito traça o seu “destino” daí a significação de uma educação baseada emconceitos pedagógicos que leve o despertar do pensamento, onde o respeito ao livre-arbítrio é fundamental, compreendendo que cada um tem seu grau de evolução, através de conquistas existenciais alcançadas.

Em O Livro dos Espíritos, na questão 385, Allan Kardec pergunta aos Espíritos: “De onde se origina a mudança que se opera no caráter numa certa idade e, particularmente ao sair da adolescência? E o Espírito que se modifica? Resposta: É o Espírito que retoma a sua natureza e se mostra como era. Não conheceis o segredo que esconde mas crianças, na sua inocência; não sabeis o que são, nem o que foram, nem o que serão (…) a infância não é apenas útil, necessária, indispensável, mas também a consequência natural das Leis que Deus estabeleceu e que regem o Universo.

Observamos assim, que a Educação do Espírito, no que tange sua energia criadora, deve ser direcionada de forma equilibrada na zona instintiva, auxiliando o jovem desde a fase infantil, ao cultivo de sentimentos elevados, direcionando sua energia para manifestações nas mais belas qualidades da alma, despertando variadas nuances de sentimentos, de forma a saber direcionar as emoções refletidas na sublimidade do amor e usufruí-las adequadamente. Desta forma a sexualidade terá um fim útil, através das várias ações, principalmenteno que se refere ao sexo, que é o recurso de energia que “alimenta” o Espírito quando bem utilizado na condição de Espírito encarnado, com base na Lei de Deus.

Não podemos esquecer que estamos vivendo a era da tecnologia, e se a criança e o jovem, principalmente, não forem bem orientados quanto às questões referentes à sexualidade, irá buscar informações que podem despertar a zona instintiva do ser e o erotismo ou agressividade na fase da adolescência poderá gerar desequilíbrios. Daí a importância de uma orientação bem direcionada para que saibam canalizar a energia criadora num elevado nível de sensibilidade, atingindo assim autonomia moral e espiritual.

Como nos diz Emmanuel, no livro Vida e Sexo, introdução, que a educação em torno do sexo não é proibição, mas orientação. Não é abstinência imposta, mas emprego digno, como devido respeito aos outros e consequentementea si mesmo. Não é indisciplina, mas controle. Não é impulso livre, mas responsabilidade. Fora disso é teorizar simplesmente, para depois aprender ou responder com a experiência…

Assim caros educadores de Espíritos, em qualquer campo de ação educativa que vocês atuem, é preciso compreender os propósitos pedagógicos de Deus e seus propostos mestres encarnados que vieram com a missão de trazer renovação no contexto educacional, quanto os desencarnados, que se mantêm junto a todos nós, nos intuindo e inspirando para que possamos melhor fazer e muito mais compreendera grandeza educativa de Deus, significando a educação do Espírito como recurso de progressonas variadas existências da escola da vida chamada reencarnação.

Não podemos esquecer que se estamos comprometidos de alguma forma com a educação de Espíritos precisamos nos preparar para tal. E um dos conceitos pedagógicos trazido por Dr. Hermann, um dos guias orientadores de nossa Casa (CELD) foi que: “Para Educar é preciso Educar-se!” …então caros educadores de Espíritos, o momento é agora!

Claro que não é uma tarefa fácil, devido às próprias limitações que cada educador traz consigo em sua bagagem espiritual. Entretanto é preciso que os educadores em ação, pais, responsáveis, professores ou evangelizadores, mas principalmente os pais, aos quais cabe a tarefa educativa inicial, estarem atentos e despidos dos próprios preconceitos, rompendo as limitações íntimas de uma educação pautada em restrições, reformulando valores com bases efetivas que possam permear a compreensão da natureza humana e espiritual, podendo, dessa forma, contribuir com a obra da Criação (L. E. – Q. 132).

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Bibliografia

Educação do Espírito – Introdução à Pedagogia Espírita – Walter Oliveira Alves – Editora Ide.

O que é Evangelização de Espíritos – Obra Mediúnica – Espírito Eurípedes Barsanulfo – Editora Esperança e Caridade.

Vida e Sexo, introdução, ditado pelo Espírito Emmanuel – Obra psicografada por Francisco Cândido Xavier, 26. ed. – RJ; FEB, 2010.

O Livro dos Espíritos, Ed. CELD

Apostila do 12o Seminário de Pedagogia Espírita na Educação –Realizado dia 1/5/2016 – CELD.

Revista A&E – atividades e experiências – Ano 9 – no 5 –setembro de 2008 – Editora Positivo.

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