“Ser espírita alivia a luta de ser negra no Brasil”

publicado em 06 dezembro de 2017 • Thainá Briggs

“O problema é que o ser humano esqueceu quem ele é e se identificou como se fosse o seu corpo”

Haroldo Dutra.

 

A certeza da reencarnação, da lei de causa e efeito e da lei de progresso são um alento para quem vivencia as desigualdades, os traumas, as injustiças e a tristeza que a discriminação racial brasileira provoca em nós, espíritos reencarnados em corpos de pele escura.

São inúmeras as experiências adquiridas ao nascermos negros, temos que perdoar o tempo todo,começando por toda a ocultação da realidade e da verdadeira história da humanidade.Um exemplo clássico sobre esse assunto é a cor da pele de Cristo Jesus, que somente por um “milagre”, teria nascido louro e de olhos azuis na região da Palestina.

Através dos séculos via regime escravagista, chegamos hoje, quando temos os menores salários, os maiores índices de morte por arma de fogo, somos invisibilizados pela mídia, e ainda a maioria nos presídios e minoria nas casas espíritas. Afinal, nossa doutrina para ser minimamente compreendida, exige um grau de instrução, leitura e estudo que a camada mais pobre da população (em grande maioria de pele escura) ainda não possui.

É um reflexo da desigualdade que se expressa também na dificuldade de o negro obter acesso a uma educação de qualidade.

Entretanto, a doutrina espírita como sempre atemporal e norteadora em todos os assuntos que perpassam a vida humana,através da codificação kardequiana, traz-nos um alento ao esclarecer sob o porquê do ser humano ainda ser capaz de discriminar seus pares.

 

L.E Questão 361: Qual origem no homem de suas qualidades morais boas ou mais?

Resposta: São as do espírito que nele está encarnado; quanto mais puro e esse espirito, mais propenso ao bem é o homem.

 

E.S.E cap. XIII – item 12: “sede bons e caridosos, essa é a chave dos céus, que tendes em vossas mãos”. Toda felicidade eterna se encerra nessas palavras: “Amai-vos uns aos outros.” A alma só pode elevar-se nas regiões espirituais pelo devotamento ao próximo e só encontra felicidade e consolação no exercício da caridade”.

Podemos comparar o ensinamento acima com a máxima do UBUNTU (filosofia africana de origem na língua Zulu, do povo bantu) que prega que “uma pessoa é uma pessoa através (por meio) de outra pessoa!

 

“Respeito. Cortesia. Compartilhamento. Comunidade. Generosidade. Confiança. Desprendimento. Uma palavra pode ter muitos significados. Tudo isso é o espírito de UbuntuUbuntu não significa que as pessoas não devam cuidar de si próprias. A questão é: você vai fazer isso de maneira a desenvolver a sua comunidade, permitindo que ela melhore?” Nelson Mandela

 

Mas na realidade, toda nossa dificuldade, toda a raiz do racismo se dá pelo fato de sermos diferentes. Ainda assim, só queremos e sabemos amar o igual, o que está posto em sociedade como o normal (branco, homem, heterossexual, classe econômica boa e saudável) tudo o que se afasta desse padrão é, em algum grau, alvo de discriminação.

Antônio de Aquino[1] nos diz que “Espíritos abnegados vieram em missão, ao Brasil, para sedimentar os princípios que Jesus deixou e que constituem hoje, o livro bendito que se chama evangelho”. Foi também a espiritualidade superior que fez com que viessem para esta terra, criaturas do continente africano e criaturas donos do poder de um país, que era mais humilde do Ocidente. Então,começou a nascer essa raça brasileira que tem no imigrante português, no negro africano e no índio a origem desse povo que é o resultado do congraçamento dessas três raças, que buscaram manter o sentimento de humildade; que buscaram manter o vigor dos braços fortes e manter também o amor à terra.

Sendo assim, podemos entender dentro do aspecto espiritual o porquê de o povo africano ter participação crucial na realização do projeto da espiritualidade maior para que possamos nos tornar a pátria do evangelho.

 

É meus irmãos… precisamos da reencarnação para entender o que é ser negro, o que é viver na linha da pobreza, o que é vivenciar um corpo com deficiência, somente encarnando numa situação de “minoria” é que vamos engrandecer nossos espíritos, é que nos tornaremos espíritos puros e não nos importaremos mais com cor da pele, opção sexual ou condições socioeconômicas.

 

Me despeço fazendo um convite a vocês, irmãos espíritas partilhadores da mesma fé e do mesmo ideal de vida: vamos juntos praticar a caridade tão falada pelo Cristo, lutando por uma sociedade igualitária e justa através da luta pela igualdade racial, pois como dizia Luther King: “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Complementando esse pensamento, a ativista feminista, Angela Davis, nos alerta neste mesmo sentido ao dizer: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”

 

Ubuntu!

[1]“Inspiração do amor único de Deus, volume III capítulo 32

 

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