Por Vânia M. Silva

“Pedi e Obtereis”, assim dizendo, Jesus nos autoriza a ficar à vontade para abrir o coração e deixar fluir o que nos vai na alma, ao mesmo tempo em que nos sugere confiança e força: momento de encontro com o mais Alto em que a alma estabelece o canal adequado para assimilar-lhe a influência. E o quanto podemos obter nestes momentos de prece!

Através da Doutrina Espírita, sabemos que estamos todos imersos no Fluido Cósmico Universal, matéria elementar primitiva, veículo de transmissão do pensamento como o ar é do som. Por meio desta matéria elementar, podemos nos colocar em ligação com outros espíritos, onde estiverem, permitindo, ainda, conforme a energia de nossa vontade, estabelecer uma corrente fluídica que permitirá sintonias tão elevadas quanto salutares. Lembrando a vibração das ondulações concêntricas de uma pedra atirada na superfície de um lago, porém, se propagando ao Infinito.

Quem de nós, em momentos de dúvida ou aflições, já não experimentou uma calma e sustentação ou sentiu uma doce inspiração após momentos de conversa silenciosa com a potência Divina? É o concurso dos bons espíritos que nos chega, com a sua permissão, podendo afastar de nós os maus pensamentos que criamos e que nos embaraçam a marcha. Quando intercedemos pelos outros, o sentimento de benevolência e a energia da vontade, que impulsionam o pensamento em prece, encontrarão aquele que seja o objeto de nossa súplica e, caso esteja em angústia ou desalento, impressões de reconforto poderão auxiliá-lo, inspirar-lhe melhores resoluções e disposições. Se estes espíritos estão desencarnados, se sensibilizarão em saber que alguém por eles se interessa, experimentando esperança, confiança e paz. Quanto à prece que fazemos em conjunto, terá imenso valor, desde que haja, entre todos, um mesmo pensamento, sentimento e objetivo. E assim, nos diz Léon Denis,“como um feixe de vontades, a prece se dirigirá com mais poder ao seu alvo, podendo adquirir uma força capaz de sustentar, abalar as massas fluídicas” (Depois da Morte, cap LI).

Há quem diga que mais pedimos do que agradecemos em nossas orações. Mas, como verificamos anteriormente, estamos autorizados a pedir. É bem certo, pois, que aquilo que nos cabe vivenciar, estando de acordo com as Leis Divinas (sempre de amor e justiça), não será desviado de nós. Representa, muitas vezes, a condição necessária ao nosso progresso. Mas é preciso nos lembrarmos de tudo quanto diariamente recebemos em forma de boas inspirações, ou até mesmo como recursos materiais (o que para alguns é obra do acaso). Kardec diz que “O impulso espontâneo, que nos faz atribuir a Deus o que nos acontece de bom, testemunha um hábito de reconhecimento e de humildade que atrai para nós a simpatia dos bons espíritos” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap XXVIII, item 28). Em outros momentos, apenas admiramos, uma vez mais, a Inteligência Suprema, seja percebendo a importância do calor e brilho do Sol, a calma da noite com seu manto de estrelas, a chuva e o ciclo das águas seja reconhecendo a perfeição do funcionamento de nosso próprio corpo! Cada pensamento destes é uma prece de reconhecimento ao Criador.

Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) nos diz: “Caminhai, caminhai pelos caminhos da prece, e escutareis as vozes dos anjos. Que harmonia! Não mais o ruído confuso nem os cantos estridentes da Terra; (…) Em que delícias havereis de caminhar! Vossas palavras não poderão definir essa ventura, que entrará por todos os poros, tão viva e refrescante é a fonte em que se bebe quando se está orando” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap XXVII, item 23).

O Evangelho de João (8:31) nos traz estas doces orientações do Mestre: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (grifo nosso)

Mas, aqueles que O ouviam, assim como muitos de nós, não se sentiam escravos de alguém! Jesus, na brandura e firmeza de seus ensinamentos, esclarece: “Em verdade, em verdade, vos digo: quem comete o pecado, é escravo” (João, 8:33).

Só esse ensinamento, por si mesmo, já é libertador para aqueles que têm “olhos de ver e ouvidos de ouvir”.

É possível concluir que o caminho para encontrarmos o que tanto desejamos – essa liberdade que nos permite sentir a paz e a tão sonhada felicidade – depende única e exclusivamente de nós! Precisamos, então, nos livrar dos pecados! Mas como?

Para isso é necessário, primeiramente, refletir e compreender esse ”pecado” ao qual Jesus se refere. Nos dicionários vamos encontrar definições diversas, mas todas indicando um desvio do bom caminho, ou seja, tudo o que é contrário à Lei de Deus. Quando, por exemplo, entendemos que as normas e regras da lei do trânsito servem para nos conduzir a um objetivo com segurança, compreendemos, com mais forte razão, que as Leis de Deus nos conduzem de maneira progressiva, incessante e com muito mais  segurança para chegarmos a Ele  e compreendermos o seu imenso amor.

Então, como identificar o que nos aprisiona e nos torna escravos?

O Benfeitor espiritual Fénelon – no Evangelho Segundo o Espiritismo cap  V – 23 – nos alerta quanto aos nossos tormentos voluntários: “… apesar das vicissitudes que formam o cortejo inevitável desta vida, (o homem) poderia, pelo menos, desfrutar de uma felicidade relativa, mas ele a procura nas coisas perecíveis e sujeitas às mesmas vicissitudes, isto é, nos prazeres materiais, em vez de buscá-la nos prazeres da alma que são uma amostra dos eternos prazeres celestes; em vez de procurar a paz do coração, única felicidade real neste mundo, ele deseja ardentemente tudo o que pode agitá-lo e perturbá-lo; e, coisa interessante, o homem parece criar para si, propositadamente, tormentos que só a ele pertencia evitar.

Se prestarmos atenção, perceberemos quantas agitações e perturbações aprisionam o homem sempre que ele supervaloriza o que é deste mundo material, como por exemplo: comprar um objeto caro e se apegar a ele, temendo que alguém o tome; ansiar ou conseguir um título para comprovar o seu valor perante a sociedade; criar um personagem para se apresentar aos outros, mantendo uma aparência de bondade e gentileza, quando guarda no coração sentimentos contrários; alimentar mágoa de ofensas, algumas vezes tão pueris, acreditando merecer o reconhecimento unânime do valor pessoal; e outras inumeráveis ilusões que a matéria proporciona.

Os Mensageiros de Jesus que nos esclarecem mais sobre todas essas verdades, constantemente, iluminam nossas consciências, apresentando as “chaves” destas prisões: discernimento, disciplina, trabalho, abnegação e amor. Este é o convite carinhoso que, aceito por nós, vai nos trazer a tão desejada liberdade!

Emmanuel nos alerta: “… a verdade libertadora é aquela que conhecemos na atividade incessante do Eterno Bem… Só existe verdadeira liberdade na submissão ao dever fielmente cumprido. Conhecer, portanto, a verdade é perceber o sentido da vida.” (Fonte Viva – Lição 173).

Ah! O verdadeiro sentido da vida!

Mas esse caminho não é pesado, como imaginamos. Foi Jesus quem nos disse: “Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e achareis repouso para vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” (Mateus, XI: 28 a 30)

Muito se ouve falar sobre caridade, quando nos propomos a estudar sobre a Doutrina Espírita. Mas será que conhecemos a real grandeza dessa palavra, e consequentemente, conseguimos entender a força que o significado dela nos traz?

Vejamos primeiramente a caridade do ponto de vista material. Em nosso dia-a-dia temos diversas oportunidades de fazer caridade. Alguém que passe por nós pedindo esmolas ou que bata à nossa porta em busca de alimento, por exemplo. Comumente tiramos algumas moedas do bolso ou um quilo de algo da despensa e damos àquela pessoa. E o questionamento é: Quantas vezes tomamos essas atitudes pela pura vontade de ajudar? Será que não estamos ajudando apenas para nos “livrarmos” de um problema, ou então na intenção de garantir um “lugarzinho no céu”?

Façamos agora mais uma reflexão sobre outro ponto interessante. Vivemos em uma era em que os bens e recursos materiais são muito valorizados e cada vez mais cedo. Desde a infância até a fase adulta, somos bombardeados com propagandas veiculadas na mídia sobre a importância de “ter”. E vamos sendo envolvidos nessa atmosfera ao longo de nossas vidas. Começa com o brinquedo novo, o videogame com os jogos mais modernos, as roupas de marcas famosas, os celulares de última geração, smartphones, tablets, carros… e assim vamos vivendo no meio dessa onda consumista e materialista que nos envolve. Pensemos juntos: É fácil para nós nos desapegarmos desses bens? É fácil doar aquilo que já não nos serve mais? Ou ainda o que nos serve, mas que guardamos por luxo ou exagero?

A caridade material, onde ajudamos o próximo no sustento e cuidado com o corpo físico é sempre muito importante, pois todos os seres da Terra precisam do mínimo necessário para sua sobrevivência. E essa caridade se torna mais importante ainda se for realizada com desprendimento e amor. O verdadeiro amor que Jesus nos ensinou.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XIII, item 4, Kardec fala sobre a caridade, nos dando o exemplo de uma senhora que cuidava de pessoas infortunadas e que em determinado momento, quando percebe que a filha gostaria de seguir seus exemplos mas não possuía os recursos necessários, diz a ela: “Quando vamos visitar os doentes, tu me ajudas a tratar deles, ora, cuidar de alguém é dar alguma coisa”. Com essas palavras, podemos perceber que caridade não se trata somente de prover recursos materiais. Isso é apenas uma de suas faces. Podemos ser caridosos o tempo todo com o nosso próximo, seja doando o nosso tempo em um trabalho na Casa Espírita ou em alguma obra social, tenha ela vínculo religioso ou não.  Além disso, somos caridosos quando ouvimos o desabafo de um amigo, quando damos força para que alguém não desista de sua vida, ao cuidarmos de um doente, quando aconselhamos alguém voltado para o bem. Somos caridosos também quando agimos com paciência e tolerância mediante as falhas e as ofensas alheias.

Portanto, de acordo com Allan Kardec, para que possamos amar verdadeiramente a Deus, precisamos ser caridosos com o nosso próximo, e que “todos os deveres do homem se acham resumidos nestas palavras: Fora da caridade não há salvação.” (E.S.E. Cap. XV. Item 5.) Assim sendo, que possamos a partir de agora, por em prática essa caridade, ainda que não pareça muito, para começarmos a  desenvolver em nós o desapego e, consequentemente, sentirmos um pouco do amor que Jesus tanto nos ensinou.

Até o capitulo XVII do Livro o Evangelho Segundo o Espiritismo aprendemos a praticar o amor e a caridade, em processo de desenvolvimento da perfeição de que somos possuidores, por sermos filhos e herdeiros de Deus. A partir do capitulo XVIII – Muitos os Chamados e Poucos os Escolhidos somos convidados a participar do “banquete celestial“, ou seja, trabalhamos para que a Lei de Deus se cumpra.
Por isso que na lição 132 do Livro dos Espíritos, Kardec pergunta qual o objetivo da Encarnação e os Espíritos respondem que a reencarnação tem duplo objetivo: “Deus impõe-lhes a encarnação com o objetivo de fazê-los chegar à perfeição (…) e também executar (…) as ordens de Deus; de tal forma que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.”.
Então Kardec lembra-nos que para sermos admitidos nesse banquete não basta levar o nome de cristão, mas ter pureza de coração e praticar a lei de Amor e Caridade e nos adverte: “… entre todos aqueles que ouvem a palavra divina, poucos são os que as guardam e as colocam em pratica!”. Ele também nos orienta dizendo que precisamos fazer grandes esforços contínuos, perseverantes para vencermos as nossas más tendências, seguirmos os preceitos de Jesus e cuidarmos dos seus ensinos com amor para que ele não seja modificado segundo nossas conveniências e interesses e, espalharmos seus benefícios em abundância.
Mas para espalharmos as palavras de Jesus precisamos da fé. Por isso Kardec no capitulo XIX – A Fé transporta Montanhas, nos fala da “Fé segura que nos proporcionará a perseverança, a energia e os recursos que permitem vencer os obstáculos.” , da “Fé sincera e verdadeira (…) que dá a paciência que sabe esperar” porque ela está apoiada na inteligência e na compreensão das coisas. Neste capitulo aprendemos também que a Doutrina espirita nos conduz a Fé raciocinada, tratando de forma clara as questões da vida, sem preconizar que está com a verdade, mas estimulando ao exame do que falso e, apoiando-se na evidencia dos fatos e da razão, construindo assim a fé inquebrantável.
Então fortalecidos pela Fé, podemos dar um passo adiante, chegamos ao capitulo XX – Os trabalhadores da última hora, e Kardec então nos ensina que precisamos conservar nossa boa vontade para estarmos à disposição do Senhor para sermos trabalhadores de sua seara, e nos alerta dizendo que os bons espíritas são os trabalhadores da última hora, e que há muito tempo o Senhor os chamava para trabalhar em sua vinha. Nós espíritas somos convocados para falar da reencarnação e da elevação dos espíritos, desempenhando nossa missão com responsabilidade e, nos orienta dizendo que devemos sacrificar nossos hábitos, trabalhos e ocupações fúteis em beneficio da propagação da doutrina para que ela frutifique.
Chegamos então no capitulo XXI – Haverá falsos Cristos e Falsos Profetas. Então pensamos que essa orientação é somente para que tenhamos cuidado com aqueles que pregam os ensinos de Jesus, mas aqui vamos pensar em nós como divulgadores. Apreendemos que muitos homens exploraram os conhecimentos que possuíam para dominar, para atender seus interesses, satisfazer sua ambição. Precisamos então nos questionar: Qual o nosso interesse em propagar a Doutrina Espirita¿ Devemos responder essa questão com sinceridade para não explorarmos os conhecimentos que possuímos para proveito próprio. Por isso o Espirito Luiz nos diz: “Ide, (…), caminhai sem vacilações, sem segundas intenções na rota bendita que escolhestes…”.
Então através do trabalho, como apóstolos de Jesus, cumprindo a parte que nos cabe na obra da criação vamos aprender a dar qualidade ao amor para tornarmo-nos espíritos melhores.
O Evangelho Segundo o Espiritismo – (Capítulos XVIII a XXI)

Ao ouvirmos mais um caso de violência urbana, como reage o nosso pensamento? Qual o teor de nossos sentimentos mais íntimos diante de uma arbitrariedade ou agressão insana? Essas são perguntas necessárias para que possamos fazer uma reflexão quanto à prática do Evangelho de Jesus, diante de uma sociedade abalada por crimes bárbaros onde uma de suas frações coloca na pena de morte a esperança de modificação de nosso mosaico social.

A criatura delituosa é alguém que ainda não se conscientizou da Lei de Deus, e embora possua esta Lei registrada em sua consciência,  ainda não despertou, semelhante a uma pequenina semente que aguarda a irrigação necessária para que um dia possa vir a eclodir, pois, em seu âmago, possui a potencialidade de frondosa árvore.

A agressividade é doença da alma que requer grande atenção desde os primeiros anos de vida, como resquícios de eras distantes em relação ao tempo, mas ainda presente em diferentes graus em nossa esfera moral.

Atualmente não mais atingimos os companheiros de caminhada terrena com armas perfuro-cortantes ou projéteis mortais, mas quantas vezes matamos o sonho, dilaceramos a alegria e usurpamos a paz de alguém?

O Mestre Jesus conhecedor do mais íntimo propósito que nos habita, coloca em sua assertiva  um alerta para cada um de nós, anotado por Mateus no capítulo 5, versículos 43 a 48, do Novo Testamento:

“Ouviste que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celestial, porque ele faz nascer o sol sobre os maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amares os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celestial.”

Amar os inimigos é ter por estes irmãos um pensamento sem ódio, nem rancor. É, não lhes desejar o mal, ou vingança, é entender que a sua melhora e evolução dependem do esforço individual de cada um ao seu tempo e ao seu modo.

O aprofundamento do conhecimento da Doutrina Espírita,  leva-nos  a entender essas situações bárbaras que abalam nossa sensibilidade, não mais com o impetuoso revide de violência que nos iguala ao infrator, mas com vibrações de paz, de caridade e de amor que podem neutralizar desatinos, ajudar a transformar criaturas e situações, auxiliando assim a implantação de um mundo melhor, menos sofrido e mais justo, como explica Elisabeth de França numa mensagem  dada em Havre, no ano de 1862, transcrito por Kardec no capítulo XI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 14:

“Ainda vos digo que estão próximos os tempos em que a grande fraternidade reinará sobre a Terra; os homens serão regidos pela lei do Cristo, que será o freio e a esperança e conduzirá as almas para as moradas bem-aventuradas. Amai-vos, pois, como filhos de um mesmo pai; não façais diferenças entre os outros infelizes porque é Deus que deseja que todos sejam iguais; não desprezeis ninguém. Deus permite que grandes criminosos estejam entre vós a fim de vos servirem de ensinamento. Brevemente, quando os homens forem levados a praticar as verdadeiras leis de Deus, não haverá mais necessidade desses ensinamentos, e todos os espíritos impuros e revoltados serão dispersados pelos mundos inferiores, de acordo com suas tendências.”

     Inaugurando o primeiro culto cristão no lar, na casa de Pedro, o Senhor Jesus usa das seguintes palavras amorosas.

“(…) É o lar diante do mundo, o berço doméstico, é a primeira escola e o primeiro templo da alma. A casa do homem é a legítima exportadora de caracteres para a vida comum. Se o negociante seleciona a mercadoria, se o marceneiro não consegue fazer um barco sem afeiçoar a madeira aos seus propósitos, como esperar uma comunidade segura e tranquila sem que o lar se aperfeiçoe? A paz do mundo começa sob as telhas a que nos acolhemos. Se não aprendemos a viver em paz, entre quatro paredes, corno aguardar a harmonia das nações? Se nos não habituamos a amar o irmão mais próximo, associado à nossa luta de cada dia, como respeitar o Eterno Pai que nos parece distante?” 1

       Ao conduzir os pensamentos daquela comunidade para as tarefas do seu próprio cotidiano, Jesus propõe que raciocinem sobre importância de ser o lar a primeira escola, onde a base é o amor ao próximo – esse mandamento primeiro, que serve de rota na vida em sociedade.

      Sintamos a convocação do Mestre querido, refletindo nos recursos, existentes em nós para a auto-educação, promovendo-se como esteio na família, que nos oportuniza o exercitar da assistência fraterna, quando: somos capazes de ouvir o outro; embalamos as esperanças de dias melhores; distribuímos o alimento que chega à nossa mesa; oferecemos nossas habilidades para o bem estar de todos. Enfim quando nos preparamos para semear o bom sentimento nos corações amigos, promovendo a paz, o equilíbrio e a conversa esclarecedora apoiada no estudo dos ensinos de Jesus, aprendemos e ensinamos ali a utilizar a força do pensamento em prol da humanidade. Verificamos as benesses distribuídas ao redor, expandindo a luz interior, pelas melhores vibrações que contagiam a se espalhar pelos arredores da casa socorrendo a muitos.

       Portanto, companheiros de ideal espírita, implantem urgentemente o Evangelho em vossas casas, escolhendo uma das sete noites da semana, a fim de que o Senhor Jesus ali permaneça. Não esperemos que o mundo faça por nós, mas iluminemos o nosso lar, para sermos lume aos desvalidos do mundo.

        Discute-se muito, socialmente, sobre a importância da educação, mas os recursos oferecidos em sociedade ainda são muito limitados, por outro lado falta a bússola que norteia esse caminho desejado no seio das famílias, advindo os conflitos e as angústias. Usemos o nosso potencial para colaborar.

       “O lar é a grande escola da família, em cujo seio o indivíduo se habilita à realização dos próprios compromissos perante as Leis de Deus e para consigo mesmo, na caminhada para o progresso. É aí, de preferência a qualquer outra parte, que a criança – o cidadão do futuro – o futuro governante – o futuro membro da sociedade – deverá educar-se, adquirindo aquela sólida formação moral religiosa que resistirá, vitoriosamente, aos embates das lutas cotidianas, das provações e dos mil complexos próprios de um planeta ainda inferior. Nem o mestre, nem o adepto de uma crença qualquer, nem o amigo, por maior que lhes seja o desejo de servir, conseguirão cultivar no coração da infância os valores da moral evangélica se os pais, por sua vez, não edificarem no próprio lar o templo feliz do ensinamento que tenderá a florescer e frutescer para a eternidade.” (…) 2

      E a espiritualidade que nos rodeia, de forma recorrente, adverte, orientando nas Casas Espíritas, sobre as necessidades dessas bases morais na primeira infância, período que marca para sempre os corações imortais.

         A Casa Espírita deve dar o suporte, mas cabe aos pais a parceria aplicando no cotidiano os ensinos do Cristo, promovendo o pensar dos pequenos acerca dos conceitos doutrinários, estimulando a boa convivência, para que sejam amanhã o cidadão comprometido e o cristão dedicado.  A conduta dos pais será sempre o grande exemplo.

        “Os meios apropriados para educar a juventude constituem uma ciência bem distinta que se deveria estudar para ser educador, como se estuda a medicina para ser médico”.3

           Exemplifiquemos o ideal cristão e sejamos acolhedores em nosso lar e no mundo!

Referência Bibliográfica:

1Lucio, Neio (espírito).Jesus no Lar, lição: Culto cristão no lar. Francisco Candido Xavier (médium). Ed. FEB, 2015.

2 Pereira, Yvonne A. A Família Espírita. Ed. FEB, 2013.

3 Rivail, Hippolyte Léon Denizard. Plano Proposto para a melhoria da Educação Pública. Edições Léon Denis, 2005.

A busca por interpretações da palavra de Jesus que remontem com precisão os ensinamentos que deu à época em que na Terra esteve revelam a ânsia de aproximação do homem com o divino amigo. Desejamos a confortadora emoção que pode nos transmitir aquele novo livro, um enfoque original de certo autor, ou uma nova pesquisa sobre a Revelação. Esse desejo confunde-se, muitas vezes, é verdade, com a “simples” – e menos nobre – vontade de reafirmar, em nós, mesmos, a competência e o domínio das escrituras, que citamos, vaidosamente, em sociedade.
Este fenômeno caracteriza os que se inclinam a seguir o Mestre, ao longo da história. Desde os evangelistas, as mensagens nos chegam, principalmente, por meio de três canais: relatos dos evangelistas, cartas de Paulo e pesquisas que se esforçam pela fidedignidade da mensagem. Somos aprendizes de muitos séculos. A que grupo de aprendizes espíritas pertenceremos?
Há aprendizes distraídos. Desatentos dos verdadeiros valores do Cristo, são como alunos que, por constrangimento, comparecem diariamente à escola, mas durante a aula suas mentes divagam. Nada aprendem. Jesus, no entanto, tem para eles palavras claras: “quem quiser ganhar a vida, perdê-la-á”.
Há aprendizes enganadores. São como alunos que “colam” nos testes decisivos, pois seu sempre dissimulado desejo não é o verdadeiro aprendizado do mundo maior, mas a aprovação deste. Fingem que aprendem, jogam para a platéia. Mas a Deus não enganam. Jesus recomenda: “não se pode servir a Deus e a Mamon”.
Há aprendizes rebeldes, que sequer fazem questão de ocultar esse pendor. Quando não denigrem a mensagem do Cristo, proclamam-se ateus. Podemos comparar espíritas encarnados neste planeta e alunos rebeldes que afrontam os professores, descuidam do uniforme, depredam a escola. O Mestre lhes diz: “ninguém vai ao Pai senão por mim”. Usando as palavras “ninguém” e “Pai”, Jesus não reduz seu ensinamento à condição cristã; antes a estende a qualquer filho de Deus, não importa o credo.
Há, enfim, aprendizes dispostos. Atentos ao desenvolvimento do mundo, interessados no porquê da vida e preocupados com os problemas do planeta, perceberam que estamos no mesmo barco: a Terra é uma só, para todos. O aprendizado requer a tradução diária do evangelho em pensamentos que, sem vigilância, tendem a ser preconceituosos; nas atitudes, não raro controvertidas; no sentimento, exigente em se tratando de nós mesmos, mas superficial quanto à dor do outro; nos testemunhos de fé, para que sejam mais firmes; nas ações fraternas e de serviço, em geral pouco efetivas.
Embora haja mérito em estudar as mais variadas interpretações da lei divina, poderíamos, sem medo de errar, mencionar apenas duas citações que deveríamos sempre guardar, pois permanecem, ao longo dos séculos, como exata tradução dos desígnios de Deus para a humanidade: “Amar a Deus sobre todas as coisas” e “Não julgueis que eu vim destruir a lei, mas cumpri-la, porquanto em verdade vos digo que o céu e a terra não passarão sem que tudo que se acha na lei esteja perfeitamente cumprido enquanto reste um único iota e um único ponto”.
Quanto ao primeiro mandamento, ao tempo de Moisés, traduziu-se em render a Deus homenagens, em temer-lhe o poder, em experimentar rigores materiais para “agradar-lhe”. Com Jesus, a lei não mudou, mas sua interpretação ampliou-se em consolação e fraternidade: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Implica respeitar a Deus como pai amoroso e bom, e ao próximo como irmão – um próximo que não fora citado, com essa conotação fraterna, na lei mosaica. Com o Consolador Prometido, anunciado por Jesus, a lei se afirma como testemunho permanente de renovação espiritual, conforme a segunda citação: amar a Deus é saber que fora da caridade não há salvação.
O amadurecimento da humanidade – que exige querermos deixar a condição de “crianças espirituais” e “alunos relapsos” – sempre passou, necessariamente, por uma compreensão aperfeiçoada das leis divinas. Mais que isso: na sua prática. Emmanuel lembra que, para além da fraseologia convincente e brilhante, devemos converter nossas experiências em páginas vivas do testamento de luz. O que mudou não foi a lei divina, mas nosso entendimento dela.