Violência nas Grandes Cidades: O que temos a ver com isso?

publicado em 19 junho de 2017 • Alexandre Lobato

Violência nas Grandes Cidades:

O que temos a ver com isso?

Alexandre Lobato

      Nenhum de nós desconhece, infelizmente, os números das estatísticas que estudam a violência nas grandes cidades. Eles são terríveis. Embora possam decair, eventualmente, eles seguem a nos mostrar, dia após dia, o que é viver num mundo de provas e expiações.

     Podemos ter como exemplo o Rio de Janeiro, que de janeiro a março de 2012 registrou 2.048 vítimas de homicídio doloso, latrocínio, auto de resistência e lesão corporal seguida de morte. No mês de maio, atingiu-se a triste marca de 398 mortes intencionais¹, na mesma cidade. E são números que estão em declínio, tendo em vista, que a cidade tem recebido um pouco mais de atenção, já que está para sediar vários eventos de importância mundial.

         São Paulo também vivencia uma onda de violência que superou, em número de mortos, as baixas creditadas ao estado de guerra declarado na região entre Israel e a Palestina. E, embora estejamos falando de grandes cidades do nosso país, este é um quadro que pode ser tranquilamente estendido para o mundo inteiro.  Recentemente a cidade de Nova York “comemorou” um dia inédito, pois 26/11/2012 terminou sem nenhum homicídio².

           E aqui estamos falando de algumas variedades da violência urbana numa “cesta de produtos” que ainda teriam as balas “perdidas”, as agressões no trânsito, as brigas entre marido e mulher, os desentendimentos por preconceito, enfim, um cortejo de dores que quase tira as belezas desse mundo tão bonito onde nos foi dado viver.

       Mas, por que isso? Às vezes, no meu dia a dia de trabalho, presencio crianças “trabalhando” nos sinais de trânsito, pedintes de menos de 5 anos e fico a me perguntar até quando a sociedade, da qual fazemos parte, vai nos propiciar espetáculos tão tristes e que não deixam de representar uma forma de violência — a miséria?

          Há muitas explicações, queiramos ou não acreditar nelas. As academias, os centros de pesquisa, instituições e sociedades de pesquisa de áreas como a sociologia, a política, a economia, a antropologia, a filosofia e muitas outras têm seus raciocínios para nos ajudar na compreensão dessa mancha na capacidade humana de conviver com o semelhante, e todas elas têm sua importância, pois de fato colaboram para encontrarmos caminhos para desenvolver uma forma melhor de vida entre nós mesmos, caminhando para o fim dessas dores ou, ao menos, para pô-las em um nível que cause menos dor e vergonha à nossa espécie.

         Mas, este é um espaço para estudos espíritas, então nos interessa saber o que o  Espiritismo e seus fundamentos têm para colaborar nesse esforço de compreensão.

         Voltaríamos, então, às perguntas. O que temos a ver com isso? Se eu sou um  bom cidadão, por que seria ou sou atingido por estas coisas? Deus permitiria que eu fosse agredido ou assaltado sem nada ter feito que justificasse esses atos contra minha pessoa?

          Bem, antes de qualquer coisa, consideremos que somos pessoas de religião. Sim, porque se não acreditamos em nada, tudo passaria a ser somente fruto do caos ou do destino. Não é esse o nosso caso. Somos daqueles que acreditam em Deus e o temos como “inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” (O Livro dos Espíritos, questão 1), sendo assim, há uma causa para tudo, inclusive para os nossos revezes. E uma causa justa, soberanamente justa, pois a justiça, juntamente com a bondade, a misericórdia e mais a onisciência, a onipotência e onipresença são atributos de Deus (O Livro dos Espíritos, questão 13). A compreensão, da forma aqui descrita, é um dos fundamentos da Doutrina Espírita. Não é à toa que esta é a primeira  pergunta de O Livro dos Espíritos.

            O Livro dos Espíritos, questão 1. Que é Deus?

           “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”

      Então, se sou atingido por uma “bala perdida”, ela na verdade, nada tem de “perdida”, ela é antes, muito “achada”, pois entre tantos na multidão, foi justamente atingir a alguém, que por alguma razão, precisava experimentar aquela situação, por exemplo; afinal, Deus é justo e, dessa forma, não haveria aflição injusta nem vítima inocente. Entretanto, crer na Justiça de Deus sem se dar a pensar nas suas Leis, é atitude de quem quer ter uma fé cega, e como espíritas, acreditamos que a fé é fruto da razão e a fé, assim cultivada, meus amigos, é outro fundamento doutrinário espírita.

         “A fé raciocinada, que se apoia sobre os fatos e a lógica, não deixa nenhuma obscuridade; a pessoa crê, porque tem a certeza, e só tem a certeza porque compreendeu. Eis por que essa fé não se dobra: visto que não há fé inquebrantável senão aquela que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIX, item 8.)

           Mas, aí, dirão aqueles que como nós querem entender os porquês, onde estaria essa razão, se olho para trás e nada vejo, na minha vida atual (repararam que usei a palavra “atual”?) ou na das pessoas que foram feridas e vi algo que justificasse tamanha dor?

      Agora, precisamos lançar mão de outro ensinamento espírita, esse presente em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo que trata da justiça das aflições. Lá encontraremos Allan Kardec a nos informar que só há duas causas para as aflições: ou elas são atuais, ou seja, fruto dos nossos atos equivocados de agora; ou anteriores a esta existência. O fato de que algo possa ser consequência de um erro cometido agora, seria em si, bem facilmente compreendido, mas a isso se junta um fato muito importante. Se, ao cometer um erro agora, sofremos suas consequências, então a cada atitude nossa, de agora, mudamos o nosso futuro e, assim, já eliminaríamos a hipótese do “estava escrito”.

          Mas, resta a possibilidade de ser, o nosso sofrer atual, dentro da sociedade, com todos os seus males, a causa de uma ação equivocada, uma decisão infeliz, do passado, de outra existência. Nesse momento, amigos, é necessário introduzir aquele que talvez seja o mais conhecido fundamento da religião espírita, juntamente com a mediunidade: a reencarnação.

        A reencarnação à luz da Doutrina Espírita, e aqui é muito importante que a caracterizemos dessa forma, pois outras correntes de pensamento religioso também a confessam como verdade. Não faz muito tempo, assistindo a um culto celebrado por uma alta autoridade de outra religião, o celebrante afirmou que a reencarnação era errada, chamando-a de doutrina da metempsicose, e afirmando que esse era o entendimento espírita. Um erro difícil de ser cometido por alguém que se anunciou “conhecedor” da Doutrina Espírita, pois a metempsicose descreve a possibilidade não apenas de as Almas humanas trocarem de corpos (o que até aceitaríamos, com muitas reservas) mas também como um entendimento sobre o que seria a reencarnação. O problema é que a metempsicose também afirma que a Alma humana pode ocupar corpos de animais, o que o Espiritismo, absolutamente, não prevê.

         À ideia de justiça, que temos quando pensamos em Deus, temos que associar a de reencarnação, pois é ela que nos faz crer que há uma razão a explicar por que uns nascem saudáveis e outros doentes, por que uns terão as oportunidades de uma vida de riquezas e outros já nascem sob as algemas da miséria, por que uns nascem em cidades com níveis tão absurdos de violência e outros em lugares onde viverão uma vida inteira sem assistir, sequer, a um delito leve. Sem a ideia que a reencarnação traz, em seu bojo, o senso de justiça, Deus seria aquele que, simplesmente, escolheria a sorte (esse seria o melhor termo) de um ou de outro. Seria aquele que “jogaria dados” para decidir nossos destinos ou, como na mitologia grega o fazia Zeus nos momentos de enfado, se divertiria a brincar com as vidas dos homens.

            O Livro dos Espíritos, questão 171. Em que se funda o dogma da reencarnação?

         “Na justiça de Deus e na revelação, pois vos repetimos incessantemente: Um bom pai deixa sempre aberta aos seus filhos uma porta para o arrependimento. Não diz a razão que seria injusto privar, para sempre, da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o melhorar-se? Não são filhos de Deus todos os homens? Só entre os egoístas se encontram a iniquidade, o ódio implacável e os castigos sem remissão.”

         Todos os espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de alcançá-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal. Sua justiça, porém, lhes concede realizar, em novas existências, o que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova.

        Considerando, então, que, como almas imortais, podemos ter várias existências, que alternamos estadias na vida espiritual e no mundo corpóreo e que, nesse processo, não perdemos o que conquistamos a cada experiência, em qualquer uma das duas formas de viver, a espiritual e a corpórea, nem em termos de aprendizado intelectual e moral, muito menos no que diz respeito às nossas relações com os nossos semelhantes e que, conosco compartilharam aquela experiência anterior; já nos é possível pensar que, algo que nos aconteça hoje, possa ter suas raízes, numa existência anterior.

        (…)“todo efeito tem uma causa”, essas misérias são efeitos que devem ter uma causa e, desde que se admita um Deus justo, essa causa deve ser justa. Ora, como à causa sempre precede o efeito, já que ela não está na vida atual, deve ser anterior a esta vida, isto é, pertencer a uma existência precedente. Por outro lado, Deus não pune o bem que se fez nem o mal que não se fez, portanto, se somos punidos é porque fizemos o mal; se não fizemos o mal nesta vida, nós o fizemos em outra. Esta é uma alternativa a que é impossível escapar e na qual a lógica diz de que lado está a justiça de Deus. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. V, item 6.)

         Compreendam como é importante associar as ideias da Justiça de Deus, de reencarnação ao fato de que, de uma vida para outra, mantemos nossas conquistas e débitos individuais. Quando, por exemplo, vemos crianças que sofrem um desencarne violento, muitos (falsos) conhecedores da Doutrina Espírita afirmam que esse sofrimento deriva de “alguma expiação de um erro passado”.

        Mas, amigos, raciocinemos: se a criança é um ser que está há tão pouco tempo nesta existência, o que ele viveu nessa vida para tomar aquela dramática experiência como uma lição? Não seria de pensar que seus pais, sim, estariam experimentando uma dor que os ajudaria a melhor compreender um erro cometido no passado? Ou até que estariam a dar um testemunho de terem se reajustado diante de Deus ao passar por uma dor semelhante a que, noutra ocasião causaram a um dos seus semelhantes. Em situações semelhantes, podemos ver a criança mais para um bom espírito que, querido do casal, prontificou-se a ajudá-los a dar aquele importante passo rumo à redenção deles diante de Jesus.

        Temos, na nossa pequena vivência na Casa Espírita, um caso interessante e que muito pode colaborar para ilustrar nosso raciocínio. Nosso querido Dr. Hermann, um dos diretores espirituais do Centro Espírita Léon Denis, por meio da mediunidade do nosso saudoso presidente, Altivo Pamphiro, ao final de uma reunião pública nos deu uma mensagem psicofônica, que inclusive tratava dos flagelos da Humanidade, tema de O Livro dos Espíritos. Na mensagem, ele afirmava que todos nós tínhamos alguma relação com o estado de violência com que convivemos nas grandes cidades e, ao se referir às cidades do Brasil, ele nos informou que tanto o tráfico de escravos, como a Guerra do Paraguai, eram eventos profundamente ligados a tudo o que experimentamos hoje.

            Ora, qual de nós viveu naqueles tempos? Perguntariam os que não acreditam em reencarnação. Nenhum de nós, eles responderiam. Então, voltaríamos a pensar que somos só “azarados”, pois, como outros, poderíamos ter nascido na Finlândia, e nada disso estaria ao nosso redor. Contudo, não é esse o nosso caso. Aqui estamos, cercados por todas aquelas feridas sociais que se retroalimentam das dores nascidas de uma sociedade injusta, a se manifestar, com todas as cores, na forma de violência. Isso é um fato, e, se consideramos Deus como justo, e, se sabemos que estivemos na Terra, antes de nascermos para esta vida, estamos autorizados a pensar que sim, o nosso caro Dr. Hermann tem, sim, uma boa hipótese para explicar a nossa estadia aqui, e mais, o nosso convívio com toda essa problemática da cidade grande.

            As atrocidades cometidas contra a população negra, trazida da África, à força, submetida às inimagináveis humilhações e dores conta do regime de escravidão que manteve a economia de nosso país por mais de 300 anos. O mesmo fizemos com as populações indígenas locais que tiveram sua cultura ultrajada e espicaçada sob os pés de uma proposta de “civilização” imposta a ferro e fogo. As atrocidades cometidas contra a população do nosso vizinho, Paraguai, derrotado num confronto bélico que arrasou um país que somente tentava se por nos rumos do desenvolvimento. As injustiças impostas aos negros e índios que participaram dessa guerra, defendendo a nossa bandeira e que foram relegados à pobreza e à miséria, ao retornarem do conflito, engrossando as nascituras favelas das cidades brasileiras não seriam motivo de sobra para o inconformismo de todas essas almas? Se como espíritos imortais não perdemos nossos pensamentos, sentimentos, desejos de uma vida para outra, como nos comportaríamos, agora, ao nascer para uma nova vida?

            Não precisaríamos ser os senhores de engenho daquela época a incentivar o tráfico de escravos, mas não poderíamos ter achado que tudo aquilo era “normal”? Não precisaríamos ter sido nenhum general a comandar massacres durante a guerra, mas não seríamos os que apoiaram os políticos que inflamaram o conflito e suas tristes consequências? Raciocinando assim, entenderíamos por que nem todos estamos entre aqueles que experimentam as dores de ter um ente querido tirado da vida por uma bala num tiroteio entre policiais e traficantes, mas não somos os que sofrem e se abalam testemunhando as lutas dos diretamente envolvidos nesse drama, ao ligarmos a TV?

            E não apenas aqui, no nosso país, mas me lembro do Altivo a nos contar que um médium (desculpe-me o leitor amigo, mas não lembro o nome desse irmão) havia lhe dito que a violência que sacudiu a cidade de Chicago, nos EUA, tinha história semelhante. Os que fomentaram e participaram daqueles inúmeros assassinatos eram as almas dos índios que naquela mesma localidade, noutra existência, haviam sido cercados e massacrados, um a um, com suas famílias, por soldados daquele país e que, nas décadas iniciais do século passado, novamente se reencontravam naquela cidade.

            A manifestação da violência, meus amigos, é característica da ignorância. E a ignorância é a ausência de instrução moral e cultural, que foi o que noutras experiências, negamos àquelas almas que agora, nos cobram da maneira que podem e sabem, o mesmo socorro e respeito de antes.

            O caminho, meus caros amigos leitores, está na educação. É assim que restituiremos aos que convivem conosco nessa situação tão complicada e triste, antes, que restituiremos às Grandes Leis, o que noutros tempos não soubemos dividir ou criar ou manter e que, agora, redunda nesse panorama de violência que nos aflige e envergonha. A educação é legado que pode, de fato, nos aproximar de um amanhã melhor, de mais paz e com Jesus.

            (O Livro dos Espíritos — Nota de Allan Kardec, após a questão 685a.) Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que só uma educação bem entendida pode curar. Esse o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos.

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¹ Dados da Agência Brasil, em matéria de Vladimir Platonow, publicada em 26/6/2012 e disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-06-26/rio-tem–menos-homicidios-mas-ainda-registra-13-assassinatos–por-dia-de-acordo-com-levantamento-do-isp.

² Matéria de Paula Adamo Idoeta para a BBC Brasil, publicada em 11/12/2012, disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/12/121206_crimes

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